BIOGRAFIA:
Amanda Lima é escritora, compositora, cantora, professora e licencianda em Letras. Natural de Gravataí, no Rio Grande do Sul, escreve desde a adolescência, encontrando na palavra um espaço de elaboração, questionamento e criação.
À frente do projeto musical Aysú, desenvolve um trabalho voltado à música brasileira e à valorização de sua diversidade cultural, por meio de músicas autorais e releituras de obras consagradas do cancioneiro nacional. Como escritora, reúne, em Contra a Gramática do Ego, fragmentos, prosas e versos escritos ao longo de mais de uma década, atravessados por questões existenciais, afetivas, sociais, filosóficas e espirituais.
Sua escrita nasce do encontro entre experiência e pensamento e busca transformar inquietações íntimas em perguntas que também possam pertencer ao mundo.
Guilherme Mossini Mendel: Quando e com quem você descobriu a escrita, e em que ocasião decidiu levá-la mais a sério?
Amanda Lima: A escrita surgiu na minha vida muito cedo, quase como uma extensão natural da minha imaginação. Não foi exatamente uma descoberta, mas algo que sempre esteve ali. Quando criança, eu gostava de criar mundos nos quais as coisas que sonhava fossem possíveis. Era uma brincadeira infantojuvenil, um exercício de imaginação que, com o tempo, foi ganhando outras formas e encontrando nas palavras um lugar de expressão.
Mais tarde, essa relação se aprofundou por meio da música. Comecei a escrever letras e a cantar palavras que, de alguma maneira, eu sentia que precisavam ser ditas. A escrita foi deixando de ser apenas um espaço de invenção para se tornar também uma forma de elaborar o que eu sentia, compreender o mundo e dar voz àquilo que, muitas vezes, não encontrava outra maneira de existir.
Acredito que foi nesse percurso, entre a imaginação, a música e a necessidade de expressão, que comecei a levar a escrita mais a sério. Não houve um momento específico em que decidi ser escritora. Foi um reconhecimento gradual de que escrever era uma maneira de estar no mundo, de me relacionar com a minha própria existência e de transformar em linguagem aquilo que me atravessava.
GMM: Em que momento a leitura entrou na sua vida e qual a importância dela para você?
AL: A leitura entrou na minha vida, inicialmente, pelos caminhos da escola, por meio dos livros que faziam parte do currículo, como acontece com tantas crianças e adolescentes. Mas foi ainda na adolescência, quando li O Mundo de Sofia, que algo se transformou. Fiquei completamente encantada com a filosofia e com a possibilidade de pensar a existência para além daquilo que nos é apresentado como verdade.
A partir dessa experiência, comecei a construir minha própria relação com a literatura. Passei a buscar, nas obras que lia, uma espécie de cumplicidade com os escritores e as escritoras, como se cada livro fosse uma oportunidade de estabelecer um diálogo íntimo com outras consciências, outras experiências de mundo e outras formas de compreender a vida.
A leitura se tornou, para mim, um exercício de autoconhecimento, uma expansão da percepção de mim mesma e da realidade que me cerca. Encontrei na dialética com os textos um espaço de questionamento, confronto e descoberta. Desde então, os livros não são apenas companheiros de percurso, mas uma das forças que me movem, que alimentam minha escrita e que me lembram, constantemente, de que pensar também é uma forma de existir.
GMM: Quais são os autores, vivos ou mortos, que mais lhe marcaram? Há algum que você considera um mestre ou referência constante?
AL: Essa é uma pergunta difícil, porque muitos escritores e escritoras me atravessam de maneiras diferentes, e seria impossível limitar a poucas referências tudo aquilo que a literatura representa para mim. Mas, se preciso ser objetiva, citaria duas mulheres às quais sempre recorro: Clarice Lispector e Virginia Woolf.
São autoras que leio e releio, e com as quais sinto que estou em constante aprendizado. Ambas tocam em lugares muito profundos da minha existência e estabelecem comigo uma conexão que ultrapassa a compreensão racional, que, por vezes, nem eu mesma consigo explicar inteiramente. Há algo na maneira como investigam a consciência, a subjetividade, os silêncios e as contradições humanas que me mobiliza profundamente.
Mais do que referências literárias, são presenças constantes na minha formação como leitora e escritora. Encontro em suas obras não necessariamente respostas, mas perguntas que continuam reverberando em mim muito depois de fechar um livro.
GMM: Na sua visão, qual é a importância da literatura na vida das pessoas?
AL: A literatura tem, para mim, a mesma importância que a ingestão de nutrientes essenciais tem para a manutenção do corpo: é alimento para uma mente viva, sã e em constante movimento.
Por meio da linguagem literária, contamos e aprendemos sobre a história do mundo, da vida e das inúmeras formas de existir. A literatura nos permite acessar aquilo que foi visto, sentido e experimentado por milhões de olhos diferentes, ampliando nossa percepção para além dos limites da própria experiência.
Acredito que a literatura é a própria sociedade descobrindo a si mesma, narrando-se e reinventando suas narrativas continuamente. É memória, questionamento, conhecimento e possibilidade. Um espaço onde a humanidade se observa, se confronta e se transforma. Talvez sua maior importância esteja justamente nisso: na capacidade de nos fazer compreender que a vida não se esgota naquilo que conhecemos, mas se expande a cada história que encontramos
GMM: Você se sente mais confortável escrevendo prosa ou poesia? Por quê?
AL: Não me sinto apenas confortável, mas encontro prazer em transitar entre as duas formas de expressão. A poesia, para mim, por vezes adentra um campo quase metafísico, um lugar em que a linguagem parece ultrapassar os limites da própria palavra. Minha ligação com a música também atravessa essa experiência, especialmente pela proximidade com o verso, o ritmo e o cancioneiro. Já a prosa me permite outros caminhos de elaboração e investigação do pensamento.
Acredito que cada forma preenche uma necessidade específica, que se manifesta em determinado momento da experiência de escrever. Não as vejo como expressões que precisam estar separadas por fronteiras rígidas. Existe, inclusive, a prosa poética, pela qual tenho grande apreço e que utilizo frequentemente em minha escrita. Para mim, são possibilidades distintas, mas que se encontram e se atravessam, de dar corpo àquilo que, em nós, busca linguagem.
GMM: O que você buscou em Contra a Gramática do Ego? Qual foi a sua intenção ou desejo ao escrevê-lo?
AL: Contra a Gramática do Ego nasceu de um compilado de escritos muito íntimos, que jamais foram concebidos com a ideia de se tornarem um livro. Escrever sempre foi, para mim, um exercício de intimidade, talvez o único espaço em que me permitia existir sem as exigências do mundo. Durante muito tempo, a única maneira pela qual consentia que outras pessoas tivessem acesso ao que escrevia era por meio das canções.
Até que compartilhei esses textos com minha amiga, colega de profissão e, hoje, editora geral da obra, Luiza Alves. Foi ela quem me incentivou, com uma força e uma convicção que eu ainda não possuía, a acreditar que aquelas páginas mereciam ser publicadas. A maneira como se conectou profundamente com aquelas elucubrações me emocionou. Ao descrever as sensações que a leitura lhe provocava, fez-me recordar o que eu própria experimentava ao ler Dostoiévski, Guimarães Rosa e Hilda Hilst: aquela espécie de conforto que nasce do reconhecimento, a sensação de ser compreendida por alguém que, sem nos conhecer, parece tocar exatamente aquilo que não conseguimos nomear.
Acredito que minha escrita nunca tenha buscado oferecer respostas, mas investigar as inquietações que nos constituem, percorrer as contradições da existência e tentar compreender, pela linguagem, aquilo que tantas vezes escapa à compreensão. O livro nasceu desse movimento, mas só se tornou possível porque alguém reconheceu nas minhas palavras algo que eu ainda não conseguia enxergar.
Se não fosse Luiza, provavelmente eu não teria publicado este livro. Mais do que isso, talvez não tivesse acreditado tanto no que escrevo. E há algo de profundamente bonito nisso: perceber que, às vezes, precisamos do olhar do outro para reconhecer a dimensão daquilo que nasce em nós.

GMM: Amanda, você poderia nos contar mais sobre o projeto musical Aysú?
AL: A Aysú é um projeto musical que ocupa um lugar muito especial no meu coração. Idealizado por mim e por Jonatan, meu grande companheiro de caminhada nesta vida, nasceu há muitos anos, já passou por diferentes nomes e formações e hoje se apresenta como um duo de voz e violão. Ao longo dessa trajetória, algumas pessoas passaram pelo projeto e contribuíram para sua história, mas a essência, a concepção artística e as composições autorais sempre foram nossas.
O que nos move é o desejo de resgatar e fortalecer nossa intimidade com a história do cancioneiro nacional, por meio de releituras de grandes clássicos da MPB e do diálogo com novas referências musicais. Também entendemos a música autoral como uma forma de afirmar que a música popular brasileira permanece viva, pulsante e em constante reinvenção.
Temos uma paixão profunda pelos movimentos musicais que constituem nossa identidade cultural e gostamos de percorrer essa história, revisitando sonoridades, épocas e narrativas que nos formaram. No fundo, a Aysú é também uma maneira de contar e cantar um pouco da nossa própria história através das canções de tantos outros que vieram antes de nós.

GMM: Onde o público pode encontrar o seu trabalho?
AL: Com a Aysú, ainda estamos em processo de entrada em estúdio para gravar nosso primeiro EP e, posteriormente, disponibilizar nossas músicas nas plataformas de streaming. Enquanto isso, temos uma página no Instagram que apresenta bem a essência do projeto e permite conhecer um pouco do nosso repertório, das nossas referências e da nossa trajetória: @aysu.musica.
Já em relação à minha carreira como escritora, é até engraçado falar assim, sabe? Ainda não me reconheço inteiramente nessa condição e estou assimilando as novas possibilidades que se abrem a partir da publicação do livro. Por enquanto, existe o meu livro de estreia, Contra a Gramática do Ego, que também pode ser adquirido por meio do link disponível na bio do meu Instagram, @amanda.al.lima.
GMM: Que projetos literários você sonha realizar nos próximos anos?
AL: Sendo bastante honesta, ainda não tenho grandes pretensões em relação a uma carreira literária. Minha escrita é profundamente pessoal. São elucubrações que nascem, muitas vezes, da necessidade de aliviar o peso de uma mente inquieta, de organizar meus pensamentos e de encontrar alguma compreensão para a minha própria relação com o presente. Boa parte do que escrevi surgiu em meio a crises de ansiedade, como uma tentativa de elaborar aquilo que, por vezes, não conseguia compreender de outra maneira.
Hoje, ao revisitar meu livro, percebo que já existem novas reflexões e pontos de vista que poderiam ser acrescentados àquelas páginas. Talvez eu continue nesse caminho dos ensaios filosóficos. Quem sabe, daqui a alguns anos, eu sinta vontade de compartilhar com aqueles que leram e se identificaram com o primeiro livro as transformações que o tempo, as experiências e as novas descobertas provocaram em mim. Afinal, somos seres em constante movimento, e acredito que nossas conclusões também merecem ser revisitadas à medida que a vida nos apresenta outras perspectivas.
Gosto de conversar com a minha própria consciência por meio da linguagem e da narrativa. Se as pessoas encontrarem algum sentido ou identificação nesse espaço de tempo em que penso, escrevo e me transformo, talvez eu continue fazendo isso.
Mas, por enquanto, não tenho nenhum projeto concreto para o futuro. Como mencionei anteriormente, ainda estou assimilando a ideia de escrever não apenas para mim, mas também para outras pessoas. Material, certamente, não me falta. O que ainda estou descobrindo é o que desejo fazer com ele.
