Poeta Guilherme Mossini Mendel
"Quem escala montanhas se fortalece. Quem procura atalhos acaba se perdendo."
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Textos

 

 

BIOGRAFIA: Margarida Hallacoc é jornalista, escritora e testemunha ocular dos bastidores de um dos maiores eventos ufológicos e midiáticos do mundo. Em 1996, então em início de carreira e habituada a cobrir pautas de economia, cultura e cotidiano, viu-se no epicentro do histórico "Caso Varginha". Como repórter local, acompanhou de perto o turbilhão que tomou conta da cidade, lidando diariamente com a pressão da imprensa internacional, o silêncio das autoridades e a profusão de relatos assustados. Décadas depois, ao resgatar seus arquivos pessoais da época, transformou suas anotações, memórias e dilemas éticos no livro Os ETs de Varginha. Afastando-se da ufologia teórica, sua obra destaca-se por oferecer um olhar humano, jornalístico e investigativo sobre o impacto social do episódio, registrando para a história as angústias de uma repórter na busca pela verdade em meio ao desconhecido.

 

 

Guilherme Mossini Mendel: Quem é Margarida Hallacoc? Como você se apresenta e se define para o público?

 

Margarida Hallacoc: Me vejo como uma repórter curiosa, dedicada, sempre atrás da apuração de fatos. Me esforço, me empenho, e a tarefa é sempre árdua, pois quem cobre variedades, como um repórter de sucursal que precisa fazer de tudo, não tem tempo de se especializar em nada. Num dia, estava cobrindo o caso do ET; no outro, uma partida de um time famoso, a visita do presidente, os apanhadores de café pegos em trabalho escravo, crimes, acidentes... Não há como se tornar excelente no meio desse caos. Mas sempre me empenhei em estudar cada pauta e fazer o meu melhor.

 

 

GMM: O que a levou a querer ser jornalista? O que mais a atrai na profissão?

 

MH: Quando adolescente, queria ser escritora, porque amava escrever. Junto com o escrever, estava também o gosto pela leitura. Os livros me fascinavam. E foi lendo que me decidi por estudar mais. O jornalismo estava muito em evidência na década de 90, e eu me apaixonei pelo jornal impresso. Então, estudei com esse propósito: trabalhar no impresso. Tive sorte em ter tido a oportunidade de entrar para um estágio no então Estado de Minas, e fiquei. Em seguida, fui para o Hoje em Dia, onde trabalharia por 20 anos.

 

 

GMM: Em que momento a leitura entrou na sua vida e qual a importância dela para você?

 

MH: Acho que foi antes de aprender a ler! Devo isso à minha mãe e à família dela, que estava sempre com um livro ou revista na mão. Minha mãe contava com orgulho que trabalhou numa biblioteca. Eu, pequena, achava aquilo fascinante. Já a minha avó paterna adorava me contar histórias oralmente, com um carisma que era só dela e me fascinava. Acho que herdei dela o gosto por preparar os meus textos como quem cozinha uma sopa de letras e serve. O repórter é essa figura que vai à horta, busca os ingredientes, lava, prepara, cozinha e serve. Há de se ter esse gosto por buscar, analisar, apurar e servir a informação ao leitor. Precisa ter conhecimento, vocabulário, enorme disposição, ética e muito gosto em servir. Um repórter trabalha demais para isso.

 

 

GMM: Quando e com quem você descobriu a escrita, e em que ocasião decidiu levá-la mais a sério?

 

MH: Creio que descobrimos a escrita escrevendo, errando, acertando... É difícil escrever. Às vezes, você quebra muito a cabeça por um único parágrafo. Lê e relê, e vê que ainda não está redondo, não está dizendo o que você teve a intenção de colocar ali. Quando “nasce”, finalmente, você vibra demais, porque escrever dá trabalho. Se você não tiver o amparo do vocabulário (que só é enriquecido com a leitura de livros de bons escritores) e algum conhecimento sobre o assunto que está escrevendo, a missão se torna impossível. Para escrever, portanto, você precisa de vocabulário e conhecimento do assunto, além de um certo dom e entusiasmo para contar aos outros o que se propõe. Não escrevemos para nós mesmos.

 

 

GMM: O que você busca nos seus textos? Qual é a sua intenção ou desejo ao escrever?

 

MH: Eu busco, nos meus textos, ser objetiva, coesa, ética. Não nego que o charme me seduz demais! Há maneiras e maneiras de contar as coisas. Você não precisa colocar 200 laços para ficar enfeitado. O minimalismo também pode ser bonito, e entre um e outro reside o segredo de cada mão que escreve, cada cabeça pensante. Na publicidade, encontramos muito isto: uma frase de milhões! Não é o tanto de palavras que escrevemos que vai dizer algo que faz o leitor atravessar uma página inteira, um livro ou ficar reflexivo diante de uma simples frase num outdoor. É cada letra, cada palavra. Sim, tem gente que tem o dom de fazer isso.

 

 

GMM: Quais são os escritores, vivos ou mortos, que mais a marcaram? Há algum que você considera um mestre ou referência constante?

 

MH: Pergunta difícil! Amo tantos que fico com medo de ser injusta ao dizer. Eu sou bem eclética, gosto de ler muitas correntes diferentes. Quando estudante, aprendi com um professor inesquecível que, para escrever, precisamos de vocabulário; ok, ele está no apanhado que nosso cérebro faz de bons autores; ok, mas se você não estabelecer intimidade com autores brasileiros, que escrevem em português, seu vocabulário nunca será profícuo. Levei para a vida. As traduções não agrupam a tal riqueza de expressões que precisamos quando escrevemos profissionalmente na nossa língua portuguesa. Se você não bater um papo cerrado com nossos divos e divas brasileiros, ficará no cais vendo outros partirem. Fato. Tenho mania de ler de novo (sei lá quantas vezes) Memórias de um Sargento de Milícias, Dom Casmurro... amo Jorge Amado, Graciliano Ramos, José de Alencar. Mas como não se perder nas entrelinhas de Cem anos de solidão, ou n’A insustentável leveza do ser? E tem muitos contemporâneos mandando bem demais da conta, como Carla Madeira, Itamar Vieira Junior, só para não estender mais!

 

 

GMM: O que a levou a escrever o livro “Os ETs de Varginha” e por que ele não é apenas uma obra sobre extraterrestres? (Pergunto isso porque, ao realizar a leitura, fiquei maravilhado com a qualidade do seu texto, assim como pude fazer uma imersão na rica ambientação que você criou.)

 

MH: O que me levou a escrever foi um certo apreço pelas recordações. Depois de anos trabalhando, você fica tocado por um ou outro capítulo de um ano vivido, um trabalho feito. Eu sou bem saudosista! Aí, você escreve como que para apreender, deter aquilo que está escorregando pelas mãos do tempo. Escrever é registrar. Eu adoro biografias, porque elas contam relevâncias e insignificâncias vividas. Acho que a vida de cada um dá um livro. Não tinha grandes pretensões ao escrever sobre aquela cobertura que me mexeu com os nervos. Como não sou ufóloga, não estava presa a nenhuma pesquisa que comprovasse o que quer que seja, e nem tinha elementos para isso. Eram somente as lembranças de uma humilde repórter. Então, lá fui eu passear pelo ano de 96. Achei importante contextualizar, inserir meus desafios reais da cobertura ao que estava acontecendo naquele ano, naqueles dias, e assim costurei as minhas lembranças. Ficar só no caso do ET ia ficar cansativo, chato, enfadonho de ler; então o inseri no meu cotidiano. Quem folheia o livro faz esta viagem de volta comigo, em dias divertidos e outros nem tanto, mas eram aqueles dias.

 

 

 

 

GMM: Como você percebe a recepção da sua obra por leitores mais céticos em comparação à comunidade ufológica já consolidada?

 

MH: Com normalidade. Todos nós cremos quase não crendo em algo. A gente acredita e duvida ao mesmo tempo. Vive no limiar, e isso é do humano. Ninguém vive no território das certezas o tempo todo; nem no da crença absoluta. Todo mundo escorrega entre um e outro, admitindo ou não. Quem falar o contrário está mentindo! A vida é isso. Muitos não vão acreditar nem se provar! Outros fiam-se nas suas suposições. Não me preocupo com isso. Mas me impressiono, sim, com a quantidade de recadinhos nas redes sociais que recebo de leitores me dizendo: “Olha, nunca tinha lido nada sobre ufologia, mas amei o seu livro. Tô com umas pulgas aqui atrás da orelha. Não sei se elas vão me picar!” Eu acho incrível isso!

 

 

GMM: Na sua visão, como o tratamento da imprensa sobre a ufologia mudou no Brasil desde a década de 90 até o cenário atual?

 

MH: Nossa, mudou muito. Hoje, há muito mais respeito pelo assunto. Não é mais chacota. Gente séria fala de ufologia, trabalha, mostra pesquisas plausíveis e estas vão ganhando credibilidade. Junto a tudo isso, vem o repórter fazer seu trabalho sem tanto entrave. E as pessoas leem, param pra ver na TV, seja para falar mal, duvidar ou corroborar. O humano tem fascínio pelo mistério e muita curiosidade. Isso está em nós desde sempre. Foi este fascínio e essa curiosidade pelo céu que nos fez olhar para cima há milênios e observar, reparar no movimento do sol, nas fases da lua, contar o tempo, as estações, os anos, quando ainda não existia nem um aparelho para isso. E o homem fez um belíssimo trabalho, desde os tempos primordiais. As mais modernas tecnologias confirmam os calendários milenares. Então, viva a nossa curiosidade! Ainda nos levará para muito mais longe.

 

 

GMM: Mergulhar em um caso dessa magnitude inevitavelmente provoca reflexões profundas. Como essa cobertura transformou a sua visão pessoal sobre o nosso lugar no universo?

 

MH: Quanto mais você estuda algo, quanto mais se aprofunda, mais descobre o quanto não sabe. Essa é a grande verdade. Já entrevistei bem mais de mil pessoas na minha vida, em mais de mil assuntos diferentes. Os rasos tinham certeza de tudo; os sábios tinham muitas dúvidas. Quanto mais sábia uma pessoa, mais humilde ela se torna. Os arrogantes imaginam que seu arroto é cheiroso, mas quem se aproxima sabe que não. Eu já olhava para o céu com admiração e respeito. Hoje, mais. Sem a pretensão de achar que estamos sozinhos no universo. Como e por que não cabe ainda aos humanos responder. Talvez nem seja da nossa conta!

 

 

GMM: Numa época de tanta (des)informação, na qual cada indivíduo tem uma postura de “eu tenho a razão”, de acordo com o seu ponto de vista, qual é a importância da cultura, do conhecimento e do jornalismo na vida das pessoas?

 

MH: A cultura é um fenômeno com diversas faces, a depender do lugar em que se manifesta e todos os elementos que a nutrem. O jornalismo passa por uma severa crise de identidade, mas ainda assim tem um papel fundamental na vida das pessoas. É preciso ler, ouvir, ver para discutir, discordar, concordar. É do jornalismo o papel de oferecer subsídios. Os veículos presos a grupos com forte embate ideológico não têm nada de imparcial, a gente sabe; mas ainda assim temos um jornalismo relevante, e quem acompanha vários veículos vai ficando craque em compará-los – o que é muito saudável. O conhecimento salva, seja por qual via vier: escolas, universidades, professores, bons livros, séries, cinema, jogos... O conhecimento salva. E liberta.

 

 

GMM: Que projetos literários você sonha realizar nos próximos anos? Sei que há muitas ideias no horizonte, mas o que você já poderia adiantar para o público?

 

MH: Ah, sim, muitas ideias, embora eu não saiba o que conseguirei realizar de fato! Mas vamos andando. Estou finalizando outro livro completamente diferente, mas que estava na minha cabeça, e eu sou dessas que não gosta de ficar com as coisas somente na cabeça. Então, vamos lá, arriscar de novo. Outra história, outro avesso, mas literatura. Tá aí: escrever salva os meus dias desde criança. Escrevi profissionalmente por décadas, tentando agradar um editor, atender a uma pauta, caber num espaço. Agora, mudei de fase. Escrevo pelo prazer de escrever, de contar uma história, e eu amo fazer isso. Saber que alguém, em algum lugar, leu e viajou comigo, é uma alegria que não consigo definir. Apenas agradeço pela generosidade do tempo empreendido, porque ler um livro é fazer uma aposta muito arriscada. Você joga na roleta um bem preciosíssimo que é o seu tempo, a sua expectativa, e o resultado só conhecerá na última página. É preciso ser corajoso, afeito a aventuras. Não é para os fracos!

 

 

(Leia a resenha aqui!)

 

 

Guilherme Mossini Mendel e Margarida Hallacoc
Enviado por Guilherme Mossini Mendel em 15/09/2026
Alterado em 15/09/2026
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