BIOGRAFIA:
Rogério Salgado é natural de Campos dos Goytacazes (RJ). Em março de 1975, escreveu seu primeiro poema e iniciou sua participação no Teatro Escola de Cultura Dramática. Em 1979, criou, com outros poetas, o Grupo Abertura de Artes e Estudos, escrevendo a peça teatral "Retorno a 200 metros" em parceria com eles. Em 1980, com a morte da mãe, mudou-se para Belo Horizonte (MG). Em 1983, criou, com Ecivaldo John e Virgínia Reis, a revista Arte Quintal, um dos mais importantes veículos culturais da época, que logo teve a adesão do poeta Wagner Torres.
Em 1993, criou o projeto "In/Sacando a Poesia", que consistia em colocar poemas dentro de saquinhos de embalar pães nas padarias. Por esse projeto, recebeu o Prêmio Capital Nacional – Categoria Poesia, em Aracaju (SE), no ano de 1998. Em 1994, teve seu conto "O Falso Autor" adaptado para o episódio "O Legado", do programa Você Decide, da Rede Globo de Televisão.
Criou e realizou, entre 2005 e 2014, em parceria com Virgilene Araújo, o "Belô Poético – Encontro Nacional de Poesia de Belo Horizonte". O evento reunia na capital mineira poetas de diversos estados do país e do exterior, sem apoio de órgãos federais, estaduais e municipais. Também com Virgilene Araújo, idealizou e realizou o projeto "Poesia na Praça Sete", que teve cinco edições e contou com os benefícios da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.
O autor tem textos publicados em jornais do Brasil e do exterior e figura em muitas antologias, entre elas A Poesia Mineira no Século XX (Imago Editora, 1999), organizada por Assis Brasil, em que aparece ao lado de nomes como Afonso Ávila e Carlos Drummond de Andrade. Com mais de 30 livros publicados, comemorou, em 2025, 50 anos de carreira literária, iniciando as festividades na cidade de Matão (SP), a convite do jornal O Boêmio.
Nesse mesmo ano, foi homenageado com o livro A reinvenção da metáfora – As bodas de Rogério Salgado (Ventura Editora), uma obra com 50 poemas escolhidos pelo professor e escritor Luiz Otávio Oliani.
Hoje, aos 72 anos de idade, Rogério Salgado é um nome reconhecido nacionalmente como um dos mais importantes poetas contemporâneos brasileiros.
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Guilherme Mossini Mendel: Quem é Rogério Salgado? Como você se apresenta hoje ao público? Poeta, escritor, editor, agitador cultural, produtor, articulador da cena literária... Depois de cinco décadas de atividade, aos 72 anos, que definição melhor traduz o homem e o artista que você se tornou?
Rogério Salgado: Já me encaixei em praticamente todas essas áreas, mas hoje estou mais sossegado. Apenas publico meus livros e faço uma coletânea anual que é o Cena Poética, trabalho esse que tenho a maior alegria em realizar, por estar sempre unindo escritores experientes com outros que estão chegando agora.
GMM: Você começou sua vida literária em março de 1975, em Campos dos Goytacazes (RJ), época em que também iniciou sua participação no Teatro Escola de Cultura Dramática. Como nasceu o poeta Rogério Salgado? Essa vivência com o teatro influenciou a sua forma de escrever poesia?
RS: Diz a lenda que, quando nasci e a enfermeira deu um tapa no meu bumbum, eu chorei um poema. Mas a verdade mesmo é que tudo começou ainda em Campos dos Goytacazes, quando estudei no Externato Regina. Lá, Dona Cely foi minha professora e minha primeira paixão. Lembro-me de uma vez em que ela pediu aos alunos uma redação cujo tema era “Eu sou uma arvorezinha”. Enquanto os outros colegas falavam de laranjeira, macieira, etc., eu fui o único a escrever diferente. Fiz uma redação falando da arvorezinha símbolo da Editora Abril, que em suas páginas trazia histórias para as crianças. Para o meu entusiasmo, Dona Cely gostou muito. Ela chegou a comentar com uma tia minha, que era madre superiora do Asilo da Lapa, onde eu ficava enquanto minha mãe vivia às voltas com problemas de saúde, que eu era muito imaginativo e que, com certeza, seria um escritor. Mais tarde, na década de 1970, ao entrar para o Teatro Escola de Cultura Dramática, envolvi-me com todo tipo de arte e ali aprendi a escrever peças teatrais, tendo, inclusive, algumas delas encenadas.
GMM: Em 1980, após a perda de sua mãe, você se mudou para Belo Horizonte. Como essa mudança de estado em um momento de luto impactou a sua vida e, consequentemente, a sua produção literária?
RS: Com a mudança para Belo Horizonte, fui morar na casa do meu único irmão. Em 1982, recebi uma pequena quantia de um seguro que a minha mãe havia feito e resolvi arriscar com a cara e a coragem. Publiquei, então, o meu primeiro livro, intitulado Tontinho, um conto ingênuo de apenas 20 páginas, numa tiragem bem humilde, já que era o que a grana dava para fazer. Com esse livro, comecei minha carreira de vender meu próprio trabalho. Saía de porta em porta no bairro Planalto, onde eu residia, e em alguns lugares no centro da capital mineira, vendendo os livros. Vendi a tiragem de 500 exemplares em mais ou menos quatro meses, experiência que me entusiasmou. Em 1982, conheci Ecivaldo John, que hoje mora nos Estados Unidos. Conheci depois Virgínia Reis, que juntou seu sonho aos nossos, que era criar uma revista cultural. Depois de muita luta, o número zero da Revista Arte Quintal saiu, no dia 13 de março de 1983. Neste mesmo ano de 1983, conheci o poeta Wagner Torres, que logo entrou para a equipe da revista, que se tornou referência cultural em nível nacional, até que, em 1992, com o Plano Collor, fechou suas portas. Fui, no ano 2000, um dos criadores do "Sarau da Lagoa do Nado", primeiro sarau em Centro Cultural de Belo Horizonte. Entre 2006 e 2011, Virgilene Araújo e eu realizamos, pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, o projeto "Poesia na Praça Sete", projeto esse democraticamente aberto para médicos, advogados, empresários, mendigos, moradores de rua, etc., no qual os artistas recebiam cachês por apresentação. Também, entre 2005 e 2014, realizamos anualmente o "Belô Poético – Encontro Nacional de Poesia de Belo Horizonte", sem verba pública e somente com a iniciativa privada. O resto é história.

(Rogério aos 18 anos, ao lado da pianista Glória Salgado, sua mãe.)

(Capa do primeiro livro Tontinho, 1982.)

(Capa da Revista Arte Quintal edição nº 4.)
GMM: Ao longo de todos esses anos, quais poetas e escritores foram fundamentais para a sua formação? Existem autores que permaneceram como companheiros permanentes de leitura e de criação?
RS: Os primeiros foram Carlos A.A. de Sá e Artur Gomes. Esses dois eram ídolos para mim, um cara de apenas 21 anos na época. Tornei-me amigo do Carlos até seu falecimento, aos 79 anos, no dia 12 de setembro de 2017. Do Artur, sou amigo até hoje. Mas, para a minha formação mesmo, foram fundamentais Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Mario Quintana, além de Kahlil Gibran.
GMM: Você construiu uma obra muito extensa, com mais de 30 livros publicados e diferentes momentos e fases. O que você procura quando escreve? O que precisa acontecer dentro de você, ou ao seu redor, para que uma experiência se transforme em texto?
RS: Tenho fobia de não estar mais neste mundo e meus inéditos ficarem engavetados, por isso sou capaz de ficar anos sem escrever um poema. Mas, quando penso num livro novo, busco inspiração atiçando-a na busca por lembranças, fatos, etc., para escrever novos poemas. Geralmente, falo de minhas saudades e fatos, assim como politicamente do que rola no país. Assunto é o que não falta. Meu tema é tudo. Mas nunca deixo de, após o poema ser escrito, trabalhar sua forma final até a exaustão.
GMM: Dentre esses mais de 30 livros, há algum poema ou obra específica à qual você atribua um significado particularmente especial na sua jornada?
RS: O livro de minha autoria que mais curto continua sendo Antes que a lua enfarte, de 2024. Amo, particularmente, vários poemas meus, mas tem um que é especial, o qual transcrevo abaixo:
OLHANDO ATRAVÉS DA VIDRAÇA
Chove dentro de mim.
Chove mais do que lá fora.
GMM: Em 1994, a sua literatura chegou à televisão nacional, quando o conto "O Falso Autor" foi adaptado para o episódio "O Legado", do programa Você Decide, da Rede Globo de Televisão. Como foi a experiência de ver a sua criação literária ganhar vida no audiovisual para milhões de brasileiros?
RS: Eu tinha um conto que era “Dois irmãos” e que contava a história de dois amigos escritores. Silas, um escritor medíocre, e Paulo Magno, um escritor de excelente escrita, ambos desconhecidos. O Paulo, devido a motivos que só assistindo o leitor entenderá, comete suicídio e deixa de presente para Silas uma obra surpreendente, para que seja publicada em seu nome. Daí, o conflito do Silas de publicar um livro como se fosse seu, sem ser. No final, o publico decidiu que ele cumprisse o último desejo do amigo. Esse conto foi lido pelo saudoso Wilson Miranda, na época diretor da Rede Globo Minas. Ele pediu para enviar para o Ítalo Granato, da Rede Globo Rio, mas deixou claro que, mesmo sendo enviado por ele, o texto só seria aprovado se tivesse qualidade para um bom roteiro televisivo. Uns 15 dias depois, recebi um recado para ir ao escritório da Rede Globo, aqui em Belo Horizonte. Chegando lá, conversamos e fechamos um acordo de valores, e o episódio foi ao ar em março de 1994, com o título "O legado". Alguns anos depois, solicitei à Globo uma autorização para publicar o conto num livro meu artesanal, intitulado A caminho de Liverpool, e tive que colocar na ficha técnica que o conto havia sido cedido pela emissora.
GMM: Sendo natural do estado do Rio de Janeiro, em 1999 você figurou na antologia A Poesia Mineira no Século XX, organizada por Assis Brasil, ladeado por gigantes como Carlos Drummond de Andrade e Afonso Ávila. O que representou para você receber esse reconhecimento como uma voz importante da poesia mineira?
RS: Foi muito importante essa participação, sim, principalmente por estar em Minas Gerais há 19 anos e ser considerado um escritor mineiro, apesar de sempre deixar bem claro meu orgulho de ser campista. Mas o divisor de águas mesmo na minha carreira foi a publicação do livro A reinvenção da metáfora – as bodas de Rogério Salgado, pela Ventura Edições, no qual o escritor Luiz Otávio Oliani selecionou 50 poemas de minha autoria e escreveu um prefácio de 14 páginas, falando de mim como poeta, coisas que eu nem imaginava que fosse tanto assim.
GMM: Sua trajetória mostra que você nunca ficou restrito à escrita dos livros: você criou e organizou grupos, revistas e saraus. Ainda em 1983, você criou a revista Arte Quintal, um veículo cultural importante da época. De onde vem essa necessidade de transformar a poesia também em ação e agitação cultural?
RS: Na verdade, eu nunca soube ficar parado, sempre tive necessidade de buscar vários caminhos paralelos e conseguia realizar esses desejos. Mas, desde minha aposentadoria pela Previdência, em 2019, tenho buscado trabalhar menos e viver mais uma vida comum, participando apenas de eventos os quais sou convidado.
GMM: Um de seus projetos mais inusitados e brilhantes foi o “In/Sacando a Poesia” (1993), que levava poemas dentro de saquinhos de pão nas padarias – e que lhe rendeu um prêmio em Aracaju. Como surgiu essa ideia de colocar a poesia no pão de cada dia das pessoas?
RS: O projeto surgiu quando senti necessidade de criar algo novo e mais barato do que se publicar um livro. Aí, ao ouvir de uma amiga que o pão era o alimento do corpo, mas que a poesia era o alimento da alma, pensei em colocar as folhas com poemas, soltas dentro de saquinhos de pães originais de padaria, e vender como um livro diferente. Esse projeto teve a participação de poetas de todo o país, como uma coletânea. Em 2013, fiz o último volume; e, ao me perguntarem por que estava parando com esse projeto, respondi que era porque já tinha enchido o saco.
GMM: Com Virgilene Araújo, você esteve à frente de projetos fundamentais, como o “Belô Poético” e o “Poesia na Praça Sete”. O “Belô Poético”, inclusive, reuniu poetas do país e do exterior por quase dez anos sem nenhum apoio de órgãos governamentais. Quais foram os maiores desafios e as maiores recompensas de manter uma iniciativa desse porte de forma independente?
RS: Os maiores desafios foram a própria realização e as maiores recompensas foram o reconhecimento das pessoas que participavam. Mas, depois de dez edições, vi que estava deixando nossos outros projetos parados. Então, decidimos fechar com chave de ouro em 2014, e reiniciar os projetos pessoais que estavam engavetados.
GMM: Olhando para trás, além dos projetos já citados, quais outros acontecimentos, encontros ou experiências mais marcaram o ser humano Rogério Salgado ao longo de todo esse período?
RS: Recebi em vida algumas homenagens, como, por exemplo, quando, em 2011, fui um dos homenageados na abertura do “2º Encontro de Escritores de Escritores Jurídicos da Paraíba”, entre outros eventos literários nacionais. Mas o que mais me marcou como poeta foi mesmo a homenagem do Luiz Otávio Oliani, no ano passado, com o livro A reinvenção da metáfora – as bodas de Rogério Salgado. Posso dizer, com certeza, que esse livro foi um divisor de águas na minha carreira literária.
GMM: Depois de 50 anos de carreira, como você vê as transformações da literatura e da poesia no Brasil? O que mudou nas formas de publicar, divulgar e consumir poesia, e o que permanece essencialmente igual desde os anos 1970?
RS: O que mudou muito foi a publicação de e-books. Eu, particularmente, não aceito livros meus dessa forma, e só gosto de ler livros físicos. É difícil avaliar num país imenso como o Brasil; mas, coincidentemente ontem, assisti a um programa na TV sobre livrarias, dizendo que o livro, hoje, é o segundo produto mais vendido no país. Desculpe, mas acabei esquecendo qual foi mesmo o primeiro.
GMM: Em 2025, suas cinco décadas de atividade literária começaram a ser celebradas na cidade de Matão (SP), a convite do jornal O Boêmio. Como foi dar o pontapé inicial nessas comemorações de bodas literárias?
RS: Foi muito gratificante, para mim, lembrar que aquele jovem, que nem acreditava que um dia seria conhecido em seu próprio bairro, hoje, pode ser reconhecido na área literária nacionalmente. Foram muitas lutas e muitas dificuldades, mas nunca deixei de acreditar no meu trabalho. Quanto a Matão, ao receber o convite do escritor e jornalista Eduardo Waack, aceitei na hora, por ser uma cidade simples do interior. Gosto muito mais da simplicidade do que das grandes pompas.
GMM: Para coroar essa marca, você ganhou o livro A Reinvenção da metáfora – As bodas de Rogério Salgado, com 50 poemas selecionados pelo professor Luiz Otávio Oliani. Como foi o processo de concepção dessa obra e qual é a emoção de realizar esses lançamentos nacionais, celebrando uma vida inteira dedicada à palavra?
RS: No final de 2024, Oliani esteve em BH para um evento, e pediu se poderia fazer esse trabalho, sabendo que eu poderia negar, por causa do imenso cuidado que tenho com a minha obra. Lá pra março de 2025, ele me ligou, dizendo que a proposta era séria e se eu autorizava. Sabendo da seriedade e da responsabilidade dele com a literatura, autorizei, e foi a decisão mais importante que tive nesses 50 anos de carreira.