Poeta Guilherme Mossini Mendel
"Quem escala montanhas se fortalece. Quem procura atalhos acaba se perdendo."
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Textos

 

BIOGRAFIA: L. S. Oliveira é natural de Macuco, interior do Estado do Rio de Janeiro, filho mais novo de Altacir Jardim e Ana Maria de Souza, nascido em 30 de outubro do ano de 1985. Formado professor no Ensino Normal Médio em 2004. Graduado em Direito em 2014. Pós-graduando em Direito Processual Civil. Funcionário da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos de 2006 a 2008 e do Banco do Brasil de 2008 a 2015. Servidor do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro desde 2015. Apaixonado por livros, tem como prediletos “Capitães da Areia”, de Jorge Amado,  e “Ensaio sobre a Lucidez”, de José Saramago.

 

 

Guilherme Mossini Mendel: Quem é L. S. Oliveira? Como você se apresenta e se define para o público?

 

L. S. Oliveira: Meu nome completo é Lucas de Souza Oliveira e adotei como nome artístico L. S. Oliveira. Sou um escritor e poeta natural da cidade de Macuco, no interior do estado do Rio de Janeiro. Nascido no ano de 1985, filho mais novo de Altacir Jardim e Ana Maria de Souza. Formado professor no Ensino Normal Médio em 2004. Graduado em Direito em 2014. Realizei cursos variados com foco em Direito Processual Civil. Fui funcionário de carreira da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e do Banco do Brasil. Atualmente, sou servidor efetivo do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Sou autor do romance “A Noiva de Ravel”, publicado em 2025 pela Editora M.inimalismos, e coautor em diversas antologias poéticas.

 

 

GMM: Como e em que ocasião a literatura entrou na sua vida? Você se lembra de quando começou a escrever e em que momento percebeu que a escrita poderia ocupar um lugar importante no seu cotidiano?

 

LSO: Não me recordo de um momento exato em que a literatura tenha entrado na minha vida, pois ela sempre esteve em mim. Desde as primeiras memórias que tenho da minha infância, sempre havia junto a mim um universo criado pelos livros. Fui uma criança muito introvertida, com poucos amigos, de modo que os livros eram minha companhia. Mas posso destacar um momento bastante relevante nessa minha relação com a literatura: quando li “Crescer é Perigoso”, da autora Marcia Kupstas, identifiquei-me muito com as aventuras daquele herói adolescente descobrindo a vida e se descobrindo. Então, escrevi uma carta à autora, contando do meu gosto pela escrita e pela leitura. Não esperava resposta, no entanto ela gentilmente me respondeu e me escreveu uma coisa que nunca esqueci. Ela me disse que não vivia sem os personagens ao redor dela. Nesse momento, eu tive uma grande sensação de pertencimento, pois os personagens que, desde aquela época, eu já imaginava também viviam, e vivem, ao meu redor. São vivos. Sinto, choro, sorrio e sofro por eles. De uma certa forma, vivo também através deles.

 

 

GMM: Em que período a leitura passou a fazer parte da sua vida e qual é a importância dela para você?

 

LSO: Como disse anteriormente, a leitura sempre esteve na minha vida, desde as histórias que ouvia, quando muito pequeno. Aprendi a ler cedo e, desde então, nunca mais me distanciei dos livros. Eram e são uma companhia. De contos de fadas passando por livros que ficaram famosos na TV (como “Tieta”, de Jorge Amado), por livros de fantasmas, de humor, de romances adolescentes, até clássicos como “Capitães da Areia” (também de Jorge Amado), “O Encontro Marcado” (de Fernando Sabino) e “O Cortiço” (de Aluísio Azevedo), e muitos e muitos outros, felizmente, pude ler ainda durante a minha adolescência. Os livros me trouxeram vocabulário, senso crítico, sagacidade, conhecimento, raciocínio eficiente e muitas outras habilidades que me ajudaram a trilhar meu caminho pessoal e profissional. Na vida adulta, o hábito da leitura aprofundou-se com a releitura de clássicos lidos na escola, como “Dom Casmurro” (Machado de Assis), “Senhora” e “Iracema” (ambos de José de Alencar), “O Primo Basílio” (de Eça de Queiroz), “A Moreninha” (de Joaquim Manuel de Macedo), entre outros. Também conheci e descobri afinidade com outros autores, como José Saramago, entre os quais cito como mais marcantes para mim “Ensaio sobre a Cegueira”, “Ensaio sobre a Lucidez”, “As Intermitências da Morte” e “O Evangelho segundo Jesus Cristo”.

 

 

GMM: Quais são os escritores e poetas, vivos ou mortos, que mais marcaram sua formação? Há algum que você considere um mestre ou uma referência constante?

 

LSO: Jorge Amado e José Saramago são minhas referências na prosa, embora muitos outros autores tenham me inspirado, como Clarice Lispector. Nos versos, minhas maiores referências são Carlos Drummond de Andrade e Mario Quintana, sendo que guardo por este último uma especial inspiração, razão pela qual, no dia 30 de julho deste ano de 2026, compus um singelo, mas amoroso, poema em homenagem aos cento e vinte anos de seu nascimento, o qual transcrevo abaixo:

 

 

Ah! Como é bom nadar

nestas águas centenárias

deste rio que transborda,

em versos alados,

amores discretos e intensos

nesta mágica existência

que, mesmo por vezes ignorada,

permanece bela e desejada.

 

(Poema de L. S. Oliveira, em homenagem aos 120 anos do nascimento do poeta Mário Quintana. 30/07/2026.)

 

 

GMM: O que você busca na sua escrita? O que o leva a escrever e o que gostaria de provocar no leitor?

 

LSO: Esta é uma pergunta bastante complexa, em cuja resposta ousarei me alongar um pouco mais. Considero a minha escrita profunda e visceral. Escrevo para romper, revelar, refletir e discutir. Mas isso tem um preço. O preço de, em muitas ocasiões, não ser compreendido, mas ser julgado pela aparência das coisas, que, na verdade, não são o que aparentam.

 

Exemplificarei com meu primeiro romance, “A Noiva de Ravel”. Esse livro foi concebido para ser um livro curto e intenso. A ideia era de que a história se desenvolvesse intensamente a cada linha, sem perda de ritmo, mas que, ainda assim, guardasse referências profundas que, por ser um livro curto, poderia ser experimentado lentamente pelo leitor que perceberia e meditaria sobre as referências. Mas o retorno que tenho recebido é que os leitores concentraram-se nos impactos explícitos da obra, e não se dobraram sobre as referências, que acabaram passando despercebidas. Gostaria de falar um pouco delas e do papel que elas desempenham na riqueza do texto que criei.

 

a) O nome da cidade fictícia em que a história se passa: refletir sobre quando a crueldade se torna onipresente. O primeiro ponto que gostaria de abordar é o nome da cidade fictícia onde a história se passa. Caso você pergunte ao Google o porquê de a cidade se chamar Paraíso, ele responderá, com base em pesquisas nas resenhas sobre o livro, que é uma ironia com as experiências terríveis pelas quais o protagonista passa nela.

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Na verdade, não é. Também não é uma homenagem ao nome do bairro em que resido. Quem leu o livro sabe que Ravel, em sua justiça, elabora um complexo sistema de espionagem na cidade de Paraíso que cobre cada canto da cidade. Após a instalação do sistema, Ravel diz que “A partir de agora, meus olhos e ouvidos estariam por toda a parte” (p. 29). Essa é uma referência direta ao conteúdo do livro sagrado de Gênesis, capítulo 3, versículo 8, quando é dito que “E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim (...)”. A presença de Ravel em Paraíso é colocada em paralelo com a presença de Deus no jardim (o paraíso) para causar um incômodo que mostre o quão profunda ruptura Ravel havia tido dele mesmo, isso porque, se a presença de Deus é benigna, desejada e um refrigério, a de Ravel é uma presença de fúria e crueldade. Ele se tornou essa presença odiosa (em contraposição com presença amada de Deus) como resultado da perda da capacidade de amar pela brutalidade que sofreu.

 

b) A relação de Beatriz, a Noiva, com Ravel: não culpabilização da mulher; ênfase da relação importa mais do que o gênero. Algumas pessoas questionaram se o livro seria misógino por colocar Beatriz como culpada pela violência que Ravel sofreu, semelhante a outros textos antigos que tendem a responsabilizar a mulher na interpretação de alguns. Esse é um questionamento típico de quem não entendeu o livro. Primeiramente, porque Beatriz não foi a culpada pela violência. Ela foi coautora. Os agressores violentaram Ravel pela própria crueldade. Tanto é assim que Marcos, na prisão, confessa que Eduardo e os outros sentiam prazer no choro de Ravel. Além disso, quando Eduardo violenta Ravel novamente ao fim do livro, no embate final entre eles, Beatriz já está morta. Então, por que uma mulher como coautora? Mais uma vez, procurei me valer da contraposição de Ravel com o bem, mostrando que realmente ele estava completamente corrompido. O mais importante não é o gênero de Beatriz. O importante para o enredo do livro é a relação de Ravel com a sua noiva. Quando Ravel diz a Beatriz: “quero que sejas minha noiva e que sejas conhecida como a Noiva de Ravel, para que todos saibam que tu te entregaste a mim, o único que sempre te amou” (p. 36) é uma referência direta ao texto da Epístola do Santo Apóstolo Paulo aos Efésios, capítulo 5, versículos 26/27, quando é dito que Cristo se entrega a si mesmo por sua igreja (a noiva) para purificá-la e fazê-la gloriosa. Mais uma vez, enquanto a presença e o agir de Deus são sempre benéficos, cuidadosos, amorosos e salvíficos, a presença e o agir de Ravel são destrutivos, como resultado de alguém que se afastou completamente do bem e do amor. Vale lembrar que Ravel entregará sua noiva à podridão, enquanto Deus purifica, glorifica, santifica e salva a sua noiva.

 

c) Os tormentos aplicados a seus inimigos: inspiração real. No livro, cada agressor de Ravel é castigado por ele. Embora os castigos sejam extremamente violentos e “irreais”, a verdade é que a inspiração de todos é real: Marcos morre numa prisão superlotada (realidade facilmente verificada em noticiários). Felipe e Fabiano são enterrados até a cabeça e deixados para morrer. Estes dois são inspirados no martírio de São Cástulo, mártir do século III, contemporâneo de São Sebastião, e chama-se soterramento punitivo. Já o castigo da fossa aplicado a Beatriz inspirou-se na narrativa de São Crisanto, que foi lançado numa fossa, mas Deus preservou a sua integridade. Um detalhe adicional sobre o castigo de Beatriz é que a inspiração de sua morte tem ligação direta com o Evangelho do Nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo. Segundo a Tradição da Igreja, Herodes, que mandou matar as crianças com a intenção de matar o Cristo, foi devorado ainda vivo por vermes. Beatriz, que matou a inocência de Ravel (inocência e criança interligados no contexto), tem o mesmo fim. “Espalhou-se a notícia pela cidade de que Beatriz fora comida viva por vermes.” (p. 85).

 

d) O tempo e a linguagem: tentativa de individualização da estrutura social de Paraíso: outros dois pontos interessantes nesta obra são o tempo e a linguagem. Enquanto Ravel prepara calmamente seu retorno a Paraíso para a destruição de seus inimigos, a cidade parece não ter mudado, o tempo parece parado. Sim, isso foi intencional. A ideia é mostrar uma sociedade que não evolui e parece presa aos próprios preconceitos e hipocrisia. Essa atmosfera de “nada muda” fica clara no episódio da morte do pai de Ravel. “As pessoas permaneceram apenas a olhar, como estátuas feitas de covardia.” (p. 16). Estátuas simbolizando uma sociedade presa à própria estrutura imutável que, no caso da sociedade de Paraíso, é, como diz o texto, a covardia. Quanto à linguagem, a opção pelo “tu” e “vós” e mesclar uma elegância antiga com termos e estruturas modernas foram a tentativa de criar um local único para simbolizar tantos locais comuns. Paraíso é uma alegoria de uma cidade brasileira onde sofrimentos comuns são levados a extremos para externar uma luta e um louvor à justiça.

 

e) O grito. Por fim, reforço que “A Noiva de Ravel” não é um louvor à crueldade nem um incentivo à justiça com as próprias mãos. A obra necessariamente tem que ser lida como uma alegoria. Os atos cruéis de Ravel são um grito incômodo e chocante, mas que precisa ser dado. Ao tratar um tema tão terrível como a violência sexual, um grito simplesmente não bastaria em defesa dos que sofrem. Era necessário um grito que choca. Eis a simbologia do herói possível em Ravel. Ele defende seu heroísmo, embora pratique atrocidades para castigar seus algozes. E isso é perturbador. Um grito perturbador de muitas vítimas que a sociedade muitas vezes não ouve.

 

 

 

 

GMM: Como nasceu essa história e o que o levou a criar Ravel e os demais personagens do livro?

 

LSO: A história de “A Noiva de Ravel” surgiu há muitos anos, quando eu ainda era jovem. Naquela época, pouco se falava sobre a violência sexual cometida contra homens e, quando se falava, era ridicularizando a vítima. É um tema muito sensível, delicado, doloroso e desconfortável e, durante muito tempo, a história permaneceu apenas na minha mente. Nem eu tinha coragem de colocá-la no papel. Ravel e os demais personagens surgiram, portanto, da observação de como a sociedade tratava (trata) essas vítimas.

 

 

GMM: O romance aborda temas como amor, violência, solidão, sofrimento e transformação. O que você gostaria que o leitor levasse consigo depois de conhecer essa história?

 

LSO: Para mim, o mais importante é que o leitor se permita sentir a história com toda a sua intensidade e até mesmo desconforto, que reflita sobre ela, que explore as referências e entenda o contexto e, o mais importante, que saia da leitura com a sensação de que este mundo que a cidade de Paraíso representa na história não pode ter mais lugar nos nossos dias.

 

 

GMM: O que você sonha realizar daqui para frente? Há algum livro, projeto literário ou experiência de escrita que gostaria de desenvolver nos próximos anos?

 

LSO: Sim, há muitos projetos daqui para frente. Quero intensificar a minha atividade como poeta e também começar a escrever o meu segundo romance.

 

Guilherme Mossini Mendel e L. S. Oliveira
Enviado por Guilherme Mossini Mendel em 10/09/2026
Alterado em 10/09/2026
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