Poeta Guilherme Mossini Mendel
"Quem escala montanhas se fortalece. Quem procura atalhos acaba se perdendo."
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Textos

 

 

BIOGRAFIA:

 

Edelsivano Oliveira Viana, mais conhecido como Vaninho, é graduado em História e atualmente estudante de Terapia Ocupacional. Servidor público há quase duas décadas, concilia sua atuação profissional com uma intensa participação em iniciativas culturais e sociais. Integra coletivos de cultura, grupos literários e associações comunitárias, promovendo ações voltadas para o fortalecimento da arte, da literatura e da cidadania.

 

Natural de Ecoporanga, Espírito Santo, Vaninho tem se destacado como escritor sensível e engajado, com publicações em diversas coletâneas de poesia e prosa. Participa ativamente de encontros e eventos literários, onde compartilha sua escrita marcada por emoção, crítica social e profundo senso de empatia.

 

 

Guilherme Mossini Mendel: Quem é Vaninho Viana? Como você se apresenta e se define para o público?

 

Vaninho Viana: Sou formado em História e, atualmente, estudante de Terapia Ocupacional. Sou funcionário público, mas gosto de me definir principalmente como alguém inquieto, curioso e profundamente ligado à cultura.

 

Faço parte do coletivo cultural Shiva e sou um entusiasta da cultura popular, porque acredito que ela guarda muito daquilo que somos, das nossas memórias, das nossas histórias e da maneira como enxergamos o mundo.

 

Minha formação em História me ensinou a olhar para as pessoas e para a sociedade tentando compreender o que existe por trás das histórias que contamos. A Terapia Ocupacional, por outro lado, tem me ensinado a olhar para o indivíduo, para suas experiências, seus cotidianos e para aquilo que dá sentido à vida.

 

Talvez eu seja justamente essa mistura: alguém que transita entre a História, a cultura, a literatura e o cuidado. E é nesse encontro que também encontro minha maneira de escrever e de me expressar.

 

 

GMM: Quando e como a literatura entrou na sua vida? Você se lembra de quando começou a escrever e em que momento percebeu que queria seguir esse caminho?

 

VV: A literatura entrou na minha vida ainda na adolescência. Sempre gostei de escrever, embora durante muito tempo tenha sido muito tímido e inseguro em relação à minha própria escrita. Eu não acreditava muito que aquilo que escrevia pudesse interessar a outras pessoas.

 

Também tive algumas vivências difíceis e, em determinado período da minha vida, escrever acabou se tornando uma espécie de válvula de escape. Era uma maneira de colocar para fora aquilo que eu nem sempre conseguia dizer.

 

Com o tempo, fui perdendo um pouco desse medo. Comecei a publicar textos em revistas e nas redes sociais e, aos poucos, a escrita foi deixando de ser apenas uma necessidade pessoal para se transformar também em uma forma de diálogo com outras pessoas.

 

Depois vieram os romances, e desse processo nasceu Qualquer um — uma história de superação e luta social, uma obra da qual tenho muito orgulho. Para mim, escrever esse livro foi também uma forma de reconhecer o caminho que percorri até ali.

 

E a história continua. Recentemente finalizei uma nova obra, que já está pronta para ser publicada. Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da literatura: a gente termina um livro, mas a vontade de escrever nunca termina.

 

 

GMM: Em que momento a leitura passou a fazer parte da sua vida e qual é a importância dela para você?

 

VV: Comecei a ler muito jovem, e essa história é até engraçada. Eu tinha uma letra horrível, e, para falar a verdade, ela continua deplorável até hoje. Minha mãe, na tentativa de resolver o problema, comprou um caderno de caligrafia e começou a me fazer copiar textos de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, entre outros.

 

A caligrafia não melhorou muito, mas acho que minha mãe acabou conseguindo algo muito mais importante sem perceber: me aproximou da literatura.

 

Enquanto eu copiava aqueles textos para tentar melhorar minha letra, fui descobrindo a força das palavras, dos versos e das histórias. Talvez eu não tenha aprendido a escrever bonito à mão, mas aprendi a contar histórias.

 

Hoje, a leitura tem para mim esse papel: é uma forma de conhecer o mundo, mas também de compreender as pessoas e a mim mesmo. Muitos dos escritores que conheci naquela época continuam, de alguma maneira, presentes naquilo que escrevo hoje.

 

 

GMM: Quais são os escritores e poetas, vivos ou mortos, que mais marcaram sua formação? Há algum que você considere um mestre ou uma referência constante?

 

VV: Sou muito eclético na literatura. Nunca consegui me prender a um único estilo ou a uma única escola. Gosto de Fernando Pessoa e Jorge Amado, de Machado de Assis e Cecília Meireles, de Bukowski e Leminski. Também gosto muito de Franz Kafka.

 

Acho que cada autor me ensinou alguma coisa, mesmo aqueles que escrevem de maneiras completamente diferentes. Gosto dessa possibilidade de transitar entre universos tão distintos e encontrar, em cada um deles, alguma coisa que dialogue comigo.

 

Mas existe uma referência que ocupa um lugar muito especial para mim: Sérgio Vaz. O que me chama atenção nele é a capacidade de fazer da literatura uma ferramenta de aproximação, de resistência e de transformação. Ele mostra que a poesia não precisa estar distante das pessoas ou presa a determinados espaços; ela pode estar na rua, na periferia, no cotidiano e na vida real.

 

Talvez seja isso que eu procure também na literatura: uma escrita que não tenha medo de conversar com as pessoas.

 

 

GMM: O que você busca na sua escrita? O que o leva a escrever e o que gostaria de provocar no leitor?

 

VV: Acho que a literatura tem um poder transformador. Ela nos ajuda a compreender o mundo, a sociedade e até mesmo a entender como chegamos até aqui e como fomos nos transformando ao longo do tempo.

 

Quando escrevo, penso muito nessa palavra: transformação. Não escrevo apenas para contar uma história ou colocar no papel aquilo que sinto. Quero que a escrita provoque alguma coisa em quem lê.

 

Seja em uma poesia, em um conto ou em um romance, acredito que o leitor vai encontrar também o meu olhar de cidadão. O meu jeito de enxergar o mundo, suas contradições, suas injustiças, suas belezas e as pessoas que fazem parte dele.

 

Não espero necessariamente que o leitor concorde comigo. Talvez o mais importante seja provocar alguma inquietação, fazer com que ele pare por um instante e olhe para alguma coisa de uma maneira diferente.

 

Se depois de ler algo que escrevi uma pessoa se sentir um pouco transformada, ainda que seja apenas por uma pergunta que ficou na cabeça, então acredito que a literatura cumpriu seu papel.

 

 

GMM:  Para você, o que torna um texto realmente bom? Entre aquilo que já escreveu, existe algum poema, conto ou livro que tenha um significado especial? Poderia compartilhá-lo com os leitores?

 

VV: Para mim, um texto realmente bom é aquele que consegue provocar alguma coisa no leitor. Não acredito que a qualidade de um texto esteja necessariamente nas palavras difíceis ou em uma escrita rebuscada. Às vezes, uma frase simples pode dizer muito mais do que um texto inteiro.

 

Gosto de textos que me fazem parar, pensar, sentir ou enxergar alguma coisa por outro ângulo. Acho que a literatura acontece de verdade quando aquilo que foi escrito encontra alguma coisa dentro de quem lê.

 

Entre o que já escrevi, Qualquer um tem um significado muito especial para mim. É uma obra da qual me orgulho, não apenas pelo livro que se tornou, mas por tudo o que representa na minha trajetória como escritor. Ele é resultado de muitos anos de escrita, inseguranças, tentativas e da coragem de finalmente colocar uma parte daquilo que escrevo no mundo.

 

Se eu pudesse compartilhar alguma coisa com os leitores, talvez fosse justamente essa ideia: não é preciso acreditar que estamos prontos para começar. Às vezes, é começando que descobrimos do que somos capazes.

 

Qualquer um nasceu um pouco disso: da vontade de escrever, mesmo quando eu ainda tinha dúvidas se deveria ser chamado de escritor.

 

 

GMM: Como nasceu o livro Qualquer um e o que você gostaria de transmitir ao leitor por meio dele?

 

VV: Qualquer um nasceu da necessidade de levar o leitor a refletir sobre temas que parecem tão corriqueiros que, muitas vezes, nem paramos para perceber o que existe por trás deles.

 

O livro fala, por exemplo, daquele trabalhador que trabalha seis dias por semana e, quando percebe, já não tem tempo para viver, para estar com a família ou simplesmente para si mesmo. Fala também do estudante periférico que carrega consigo o sonho de vencer, mesmo diante de tantas dificuldades. Fala de violências, de violações, mas também de pertencimento e de esperança em dias melhores.

 

São histórias e situações que fazem parte da nossa sociedade, mas que muitas vezes aprendemos a enxergar como normais. Eu queria justamente provocar esse olhar: fazer o leitor parar diante dessas situações e perceber que existe uma pessoa, uma história e uma realidade por trás daquilo que muitas vezes tratamos apenas como cotidiano.

 

Qualquer um é, para mim, um livro sobre pessoas comuns enfrentando questões que são muito maiores do que elas. Mas também é um livro sobre a capacidade de continuar sonhando, de encontrar pertencimento e de acreditar que as coisas podem ser diferentes.

 

No fundo, talvez o que eu queira transmitir seja isso: a esperança não significa ignorar a realidade; significa olhar para ela de frente e ainda assim acreditar que podemos transformá-la.

 

 

GMM: Como nasce um texto para você? Existe algum processo criativo, ritual ou circunstância que favoreça sua escrita?

 

VV: Meus textos nascem muito das minhas vivências e daquilo que observo como cidadão. Sou um observador do meu meio, das pessoas, das situações que acontecem ao meu redor e das pequenas coisas do cotidiano que, muitas vezes, passam despercebidas.

 

Não tenho exatamente um ritual para escrever. Muitas vezes uma situação, uma conversa, uma cena ou até uma inquietação fica na minha cabeça e, em algum momento, vira texto.

 

Acho que escrevo muito a partir desse lugar de observador. O que acontece comigo se mistura ao que vejo acontecer com os outros e, desse encontro, surgem as histórias, as poesias e os personagens.

 

Talvez por isso minha escrita esteja sempre muito ligada à vida real. Eu não preciso necessariamente procurar uma história; muitas vezes, é a própria vida que me entrega uma.

 

 

GMM: Quais são suas principais publicações e trabalhos, e onde o público pode conhecer sua produção?

 

VV: Ao longo da minha trajetória, já tive a oportunidade de participar de algumas antologias, experiências que considero muito importantes porque me permitiram dividir espaço e histórias com outros escritores.

 

Também participo da Revista Entrelinhas, que tem um papel muito importante na divulgação e valorização da literatura em nossa região. Além disso, tenho a alegria de colaborar com a Revista Tropicalzin, do meu grande amigo e poeta Zion, que também é um espaço muito especial de circulação da literatura.

 

Mas, sem dúvida, um dos momentos mais importantes da minha trajetória foi a publicação do meu primeiro livro solo, Qualquer um. É uma obra da qual tenho muito orgulho, não apenas por ter sido meu primeiro livro, mas por representar uma conquista pessoal e literária depois de tantos anos escrevendo. (Conheça o livro aqui!)

 

Hoje, continuo escrevendo, participando de espaços culturais e buscando novas formas de fazer minha literatura chegar às pessoas. Para mim, a literatura também acontece nesses encontros, nas revistas, nas antologias, nos coletivos e nos espaços culturais onde escritores e leitores podem se encontrar.

 

 

GMM: Que projetos literários você sonha realizar nos próximos anos? Há algum livro ou trabalho que ainda gostaria de escrever?

 

VV: No momento, meu maior sonho é conseguir publicar meu novo trabalho, Onde as raízes permanecem. É um livro muito especial para mim, porque acompanha a trajetória de três gerações de mulheres que vivem em uma mesma comunidade e que vão compartilhando suas vivências e experiências.

 

Cada uma delas carrega suas dores, seus traumas e suas desilusões, mas também passa por processos de crescimento e de descoberta. No fundo, elas vão percebendo que, apesar de suas histórias serem diferentes, fazem parte de algo maior, de uma mesma comunidade e de uma história que também se conecta.

 

Tenho muito carinho por esse livro e estou ansioso para que ele possa chegar aos leitores. Espero que as pessoas consigam se reconhecer um pouco nessas personagens e, quem sabe, olhar para suas próprias histórias de uma maneira diferente.

 

Por enquanto, é esse o meu grande projeto. Depois dele, certamente virão outras histórias, porque quem começa a escrever dificilmente consegue parar.

 

 

 

 

Guilherme Mossini Mendel e Vaninho Viana
Enviado por Guilherme Mossini Mendel em 06/09/2026
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