Poeta Guilherme Mossini Mendel
"Quem escala montanhas se fortalece. Quem procura atalhos acaba se perdendo."
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Textos

BIOGRAFIA: Natural de São Paulo, Angelo Asson é escritor e designer gráfico há trinta anos. Cursou Propaganda & Marketing na ESPM e colaborou em algumas das maiores editoras do país. Por navegar nas duas áreas, produz seus livros de forma artesanal, cuidando de todo o processo, desde a parte textual até o projeto gráfico. Seus temas preferidos são as pessoas e seus comportamentos em sociedade. O autor não se prende a um único gênero literário e explora várias formas para se expressar, seja em forma de livros, exposições fotográficas, videopoesias ou roteiros. É o criador do selo Publik fácil e do projeto Eskrita.

Guilherme Mossini Mendel: Quem é Angelo Asson? Como você se apresenta e se define para o público?

Angelo Asson: Prefiro me definir como escritor, e não como poeta ou contista. Acho que isso limita a definição do autor dentre as infinitas possibilidades da escrita. Sou também designer gráfico há mais de 30 anos. Escrevo desde pequeno, mas tenho levado a escrita mais a sério faz uns dez anos. Nesse curto período de tempo, consegui publicar várias obras, entre livros, livretos, folhetos e até exposições fotográficas. Gosto de testar possibilidades para compartilhar meus textos.

GMM: Em que circunstâncias a leitura entrou na sua vida e qual é a importância dela para você?

AA: Acredito que a literatura tenha entrado em minha vida bem cedo, como uma forma de colocar para fora minhas dores, minhas ideias, minhas alegrias e meus questionamentos sobre o mundo e as pessoas. Questões que me interessam até hoje. O modo como as pessoas se comportam em sociedade é uma rica fonte de matéria-prima para mim. E escrever, para um garoto tímido, é uma forma de desabafo. Ainda que ninguém venha a ler, funciona como terapia.

GMM: Quando você começou a escrever? Você se lembra dos primeiros poemas ou textos que produziu? Em que momento percebeu que a escrita poderia deixar de ser apenas uma forma de expressão pessoal e se transformar em uma atividade literária?

AA: Comecei ainda criança, sem me preocupar com rimas ou métrica. Nem conhecia as técnicas para escrever um poema dentro das normas tradicionais. Era apenas a minha forma de me expressar, de colocar para fora o que eu sentia. Não tinha a pretensão de me tornar escritor. Na verdade, eu queria ser jogador de futebol. Guardo uma pasta com meus primeiros poemas datilografados até hoje. Foi bom guardar essa pasta, não só para relembrar as coisas que eu estava sentindo naquela época, mas também como um registro de como tudo começou. Minha escrita evoluiu e meus propósitos mudaram. Hoje, escrevo mais por amor ou por teimosia do que pelo sonho de me tornar um escritor reconhecido. Sei o quanto isso é difícil. Mas, com a minha experiência, acredito que possa ajudar muita gente que está começando a aprimorar seus textos e evitar os erros que eu cometi pelo caminho.

GMM: Quais autores, vivos ou mortos, mais marcaram sua formação como leitor e escritor? Há algum que você considere um mestre ou uma referência constante?

AA: Li muita gente boa, mas os nomes que sempre vêm em primeiro lugar na minha mente são Dostoiévski e José Saramago. Este, por sua escrita envolvente, com metáforas incríveis, e Dostoiévski, por explorar com maestria as inquietações internas dos seres humanos, seus traumas e como isso é usado para moldar o comportamento dos seus personagens. Se são referências inconscientes, não sei. Mas acho que, tendo ou não referências, não devemos tentar copiá-las, e sim encontrar o nosso estilo próprio.

GMM: O que você busca com a sua escrita? O que mais gosta de escrever e o que deseja provocar no leitor quando produz literatura?

AA: Gosto de escrever sobre pessoas, explorando ao máximo todos os sentidos. Uma leitura que não consegue provocar o leitor é uma leitura fria, quase didática. Quero que os leitores chorem, que fiquem tristes, que sofram a dor do personagem. Eles precisam ficar com raiva, precisam se apaixonar, tentar ajudar o protagonista quando ele sofre uma injustiça. Não faz mal que eu seja odiado por isso. Sinal que atingi meu objetivo de provocar. Somente as provocações resultam em reações. E somente textos que fazem os leitores tomarem atitudes frente às injustiças é que podem transformar o mundo em que vivemos num lugar muito mais humano. É isso que busco por meio da minha escrita: uma sociedade mais empática e menos agressiva.

GMM: Em sua produção, a poesia ocupa um lugar importante. Para você, o que torna um texto verdadeiramente poético? Entre os poemas que escreveu, existe algum que tenha um significado especial? Por quê? Você gostaria de compartilhá-lo com os leitores?

AA: A poesia é importante porque não está apenas na escrita. Ela está em tudo o que é bom e belo. Vem do latim ‘poiesis’, que significa fazer, criar, compor. E o que torna um poema realmente poético é a sua capacidade de emocionar quem o lê. Não são as rimas, não é a métrica. É a mensagem! O poema pode ser totalmente torto, pode fugir às regras, ignorar a gramática. Mas, se ele tocar o leitor, cumpriu seu papel.

Tem um poema de que gosto muito. Vou compartilhar com vocês.

Tralha

Triste fim da medalha

Que vira tralha quando a gente morre

Ou envelhece e se esquece porque é que tanto a quisera

Pudera em vez da medalha

Que vira tralha quando a gente morre

Um porre

Ao lado de quem eu tivera

E que agora envelhece e se esquece que eu tanto a quisera

GMM: Qual é, para você, o papel da literatura na vida das pessoas? E que papel ela pode desempenhar em uma sociedade como a nossa?

AA: A literatura é crescimento, evolução, alívio em certos casos. É reflexão, é estudo. É saber que existem opiniões divergentes, e que elas são importantes para enriquecer a nossa bagagem cultural. É fundamental tanto para o crescimento pessoal quanto para a evolução da sociedade, do país. A literatura aumenta a autoestima, aumenta a confiança, a criatividade, a produtividade. Não existe contraindicação na leitura. Mas… você pergunta qual o papel da literatura numa sociedade como a nossa. E há um detalhe oculto nessa pergunta: uma sociedade ‘como a nossa’. A sociedade atual vem se afastando da literatura aos poucos e isso é perigosíssimo. Quando uma sociedade se afasta do conhecimento, ela é facilmente manipulada por quem lê muito, por quem estuda, por quem utiliza justamente o saber para dominar em benefício próprio. Daí a grande importância da literatura na vida de qualquer ser humano. Para evitar o domínio dos maus.

GMM: Você possui uma longa trajetória como designer gráfico e experiência no mercado editorial. De que maneira o designer influencia o escritor (e o escritor influencia o designer) em seu trabalho? Até que ponto o projeto visual de um livro faz parte da própria experiência literária?

AA: Texto e imagem caminham juntos. Imagine uma candidata a modelo profissional que vai fazer um teste descabelada, com roupas amassadas, unhas mal feitas e com uma péssima postura. De nada vai adiantar ela saber se comunicar e ter ótimas histórias para contar. É assim na literatura. A parte textual caminha lado a lado com a parte visual. Um livro precisa de um bom projeto gráfico, que dialogue com a história. O design precisa atrair o leitor e tornar a leitura agradável. Isso se faz com o entendimento por parte do designer do conteúdo da obra para que ele possa utilizar imagens e famílias de letras que façam sentido dentro do contexto.

GMM: Sua produção reúne poesia, crônicas, contos, literatura de cordel, livros sobre escrita e projetos que transitam por diferentes linguagens. Como você enxerga esse conjunto de trabalhos? Quais considera suas principais publicações ou projetos até aqui, e onde os leitores podem conhecer sua produção?

AA: O fato de ter obras em vários gêneros e em formatos diferentes faz parte da minha experimentação e da minha evolução dentro da literatura. É um processo natural, uma busca por identidade própria. Comecei com poemas; passei para os contos, crônicas, roteiros; e agora me lancei em enredos mais longos. E cada um desses formatos tem a sua especificidade. Pode parecer que a poesia seja mais fácil por ser geralmente mais curta. Mas é como já comentei: ela precisa emocionar. Já uma crônica é fruto de muita observação. Os contos devem ser objetivos, mas podem deixar uma questão no ar no final, não há a necessidade de um final definitivo. As histórias mais longas necessitam de uma preparação prévia, criação de personagens, estruturação de arcos narrativos, um bom tema e muito mais tempo para desenvolvê-las.

Minhas principais publicações são “Transbordamento – A palavra como companheira”, que traz os textos que escrevi ao longo do isolamento social de 2020, uma obra totalmente artesanal e um excelente registro da pandemia; “A face poética da morte”, com poemas que abordam a vida e a morte, esse tema tão delicado para muitas pessoas; e “O guia definitivo do escritor iniciante”, que traz dicas de escrita criativa baseadas na minha experiência como escritor e designer gráfico; e o mais recente, “Tohmás e o portador das más notícias”, uma ficção onde o personagem principal descobre que não tem a idade que imaginava ter, o que provoca uma série de questionamentos e uma busca de reparação pelos erros do passado. No total, são mais de 20 obras que podem ser encontradas no meu site: https://angeloasson.wordpress.com/meus-livros/. Todas disponíveis nos formatos impresso e digital.

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GMM: Você construiu também uma trajetória bastante ligada à publicação independente. O que essa experiência lhe ensinou sobre o mercado editorial e sobre o próprio ofício de ser escritor?

AA: Com o tempo descobri o quanto é difícil viver unicamente da escrita. Ser independente ou contratado por uma editora é igualmente difícil. Cada caminho tem seus prós e contras. Cabe ao autor escolher o que é melhor para si, dentro das suas expectativas na literatura. Escritor sempre serei, afinal, escrevo e sou lido. Mas para viver da literatura é preciso abrir outros caminhos. De um modo geral, escritores não podem depender unicamente da venda de livros. Isso também faz parte da minha constante busca por alternativas. No momento estou dando ênfase a compartilhar meu conhecimento em forma de aulas e dicas de escrita. Pode ser uma alternativa para o futuro.

GMM: Como funciona sua rotina de escrita? Você possui algum horário, ambiente ou ritual preferido? E de onde costumam surgir suas ideias: da observação do cotidiano, de experiências pessoais, de leituras, de imagens, de conversas...?

AA: Pelo fato de não viver da escrita, não consigo ter uma rotina rígida para escrever. Preciso dividir meu tempo entre o trabalho e as tarefas de casa. Também preciso reservar um tempo para a leitura, que faz parte do ofício da escrita. Sobra pouco tempo, e ele precisa ser muito bem aproveitado. E são muitas ideias, mais do que o tempo que disponho para colocá-las em prática. Mas sigo em frente, me inspirando no mundo ao meu redor, nas pessoas, seus comportamentos em sociedade. Tudo o que vejo, leio, sinto é matéria-prima para meus textos.

GMM: Quais projetos você sonha realizar nos próximos anos? Existe algum livro, projeto literário ou experiência artística que ainda esteja esperando o momento certo para acontecer?

AA: Tenho sempre muitas ideias. Adoraria ter tempo para colocar todas em prática, mas é humanamente impossível. Muitas acabam sendo deixadas pelo caminho. Talvez não vinguem porque não eram para acontecer. Não fico me lamentando por isso. Muitas outras ideias surgem a cada dia. Tenho um roteiro para terminar, um conto em andamento, e uma ideia na qual estou trabalhando sem pressa e que pode se tornar um grande romance, baseado em uma obra de Michel Foucault: “A história da loucura”. E pretendo continuar ajudando os novos autores a aprimorarem seus textos, com minhas aulas de escrita criativa, no meu canal no YouTube (https://www.youtube.com/@AngeloAsson).

Guilherme Mossini Mendel e Angelo Asson
Enviado por Guilherme Mossini Mendel em 02/09/2026
Alterado em 02/09/2026
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