Poeta Guilherme Mossini Mendel
"Quem escala montanhas se fortalece. Quem procura atalhos acaba se perdendo."
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Textos

Pobre livro

Era uma vez um lindo livro. Ele pertencia a dois irmãos, o Juca e a Nica. Os seus dias eram de muita alegria, pois, desde as primeiras horas da manhã, os irmãos estavam com ele, hora com o Juca, hora com a Nica. Ele era muito feliz, pois tinha o amor daqueles irmãos todos os dias.

Os irmãos liam suas histórias um para o outro. Vejam, também brincavam com seus bonecos e carrinhos, imitando as histórias do livro. Ele estava sempre limpinho, reluzente de alegria, pois, para ele, tudo o que importava eram as aventuras que fantasiavam em suas brincadeiras.

Houve um dia em que os irmãos improvisaram uma sala de aula, onde a mãe era a professora e eles, os alunos. Tinham que ler um conto do livro em voz alta e depois interpretá-lo. Foi uma das tardes mais lindas para o livro, sentindo-se útil, repassando conhecimento, feliz ao ser lido pelo Juca e pela Nica, seus protetores, que cada vez estavam melhorando a sua leitura e dicção.

Em um outro dia, improvisaram um laboratório, inspirados em um conto do livro que tratava sobre ciências. Eram dias maravilhosos. O livro era o amigo mais fiel e importante para as crianças. Quando era noite, dormia embaixo do travesseiro de um dos irmãos. Sentia-se quentinho, protegido, e ainda ficava escutando a respiração das crianças. Às vezes, eles sonhavam com as brincadeiras diárias e murmuravam algumas palavras e frases. Teve uma noite em que a Nica sonhou com o livro e repetia que o amava muito, que adorava brincar com ele. E o amigo livro, ali, embaixo do travesseiro, escutando tudo, se fosse possível chorar de tanta alegria e amor pelos dois irmãos, certamente ficaria encharcado.

O tempo passa rápido. Os irmãos foram crescendo. Uma noite, ele estava no sofá da sala, junto com a família, e escutou o pai dizer aos irmãos que eles iriam ganhar um celular. O livro ficou pensativo: o que seria esse celular? Então alegrou-se, pois deveria ser mais um livro. Ele também teria um irmão para conversar e lhe auxiliar na educação dos irmãos.

Naquela noite, dormiu embaixo do travesseiro do Juca. Este sonhou com o celular e repetia, no sonho, que iria amá-lo muito. O amigo livro ficou muito feliz e animado. Não sentiu ciúmes algum. Pelo contrário, encheu-se de alegria pelo novo amigo que iria chegar. Juntos, fariam muitas brincadeiras e leituras com os dois irmãos. Já era final de ano, os irmãos tinham sido aprovados na escola com ótimas notas. Novamente encheu-se de alegria, pois tinha contribuído para que isso acontecesse.

Chegou o dia de Natal. Os dois irmãos levantaram e saíram correndo para a sala, onde estava o pinheirinho. Nem lembraram dele. Nenhum abraço, nenhum afago. Gostaria muito de ter ido junto com eles, para conhecer seu novo amigo, que se chamava livro celular, pensou. Nossa, juntos faremos muitas brincadeiras, pensou. Não se aguentava de ansiedade para conhecê-lo.

Do quarto, onde estava, escutava risos. Estavam muito felizes. O livro celular deveria ter novas histórias muito interessantes.

Nos dias que se seguiram, os amigos, após tantos anos, não brincavam no quarto. Não ficou triste novamente. Deixava eles conhecerem melhor o livro celular. Ficou tranquilo. Estava embaixo do travesseiro da Nica. Logo ela viria para o quarto e juntos viveriam uma nova aventura.

À noite, já era tarde, quando os irmãos vieram para o quarto com o novo amigo. Logo, ouviu a mãe lhes avisar que estava na hora de dormir. Apagaram a luz e escutou a Nica murmurar algumas palavras, mas não eram para ele, e sim para o livro celular. Aquietou-se e dormiu.

Na manhã seguinte, preparou-se para o abraço das crianças e também para conhecer seu novo amigo. Achou estranho: as crianças saíram com o livro celular e ele ficou. Logo voltarão, pensou. Então, chegou a mãe para arrumar o quarto e, quando o viu embaixo do travesseiro...

Adivinhem o que ela fez?

Guardou-o no armário e o fechou lá. Até hoje ainda não conheceu o seu novo amigo. Somente via a luz do dia quando abriam o armário, pois ele estava lá, na última prateleira. Não sabia há quanto tempo estava ali, empoeirado. Já tinha perdido seu brilho reluzente havia muito tempo. Só escutava a voz dos seus queridos amigos. Parecia diferente.

Houve um dia em que escutou a mãe lhes falar que tinham que organizar o armário. Os dois irmãos, já crescidos, o encontraram. Pensou: depois de tanto tempo, vou ganhar um belo abraço. Mas, para sua surpresa, o amigo Juca falou:

— Nica, põe esse livro para doação!

(Ivan Paulo Nadaletti — 31/08/2026)

Ivan Nadaletti
Enviado por Guilherme Mossini Mendel em 31/08/2026
Alterado em 31/08/2026
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