Depois de ter sido humilhado e atormentado pelo bullying na infância, e levando em conta a minha atual posição como professor, percebo que há muito pouco que a nossa coletividade consiga fazer para estancar esse problema.
Observando a dinâmica escolar, muitas vezes parece que a prática do bullying é quase inerente ao amadurecimento. Crianças e adolescentes estão em uma fase turbulenta de autoafirmação, em que a necessidade de pertencer ao grupo majoritário fala mais alto. Eles buscam o seu lugar no mundo e, para isso, sentem que precisam impressionar ou se mostrar superiores. Desde muito cedo, percebem que a nossa sociedade do consumo e da competitividade não tem espaço para todos. Ninguém quer ser ignorado; todos querem estar ao lado dos "vitoriosos".
Nesse cenário, geração após geração, sempre veremos aqueles que não se encaixam nos padrões predeterminados de sua época. Na minha infância, por exemplo, enquanto a maioria dos outros meninos era extrovertida, escutava as músicas da moda e era boa nos esportes, eu era introvertido, gostava de bandas desconhecidas e quase sempre era um dos últimos a ser escolhido durante as aulas de Educação Física.
A escola é muito cruel nesse aspecto. Em seu papel de laboratório social, ela expõe seres humanos em formação a testes excludentes e, muitas vezes, traumatizantes. O cenário é mais ou menos este: se Fulano não joga bem, é excluído. Se Beltrano não é extrovertido, é excluído. Se Sicrana não se adequa ao padrão de beleza, é excluída. Se o Zé Ninguém não tira boas notas, é excluído. Se a Malfadada faz perguntas consideradas idiotas, ou se o Vara Verde tem medo de conversar com as meninas, o destino é o mesmo.
Hoje, do outro lado da sala de aula, vejo esse ciclo se repetir diariamente. E não é por falta de debate. Diretores falam, professores advertem, palestrantes visitam as escolas, pais são chamados. Muitas vezes, nada disso surte efeito. O modelo tradicional de combate ao bullying falha porque esbarra na natureza do comportamento humano. Para muitos agressores, inclusive, menosprezar o próximo é uma estratégia para chamar a atenção para si mesmos, como nas ocasiões em que os jovens ofendem justamente quem desejam atrair.
Já presenciei, em diversas situações, meninos humilhando meninas em público para, no minuto seguinte, essas mesmas meninas estarem abraçadas a eles, romantizando a agressão. É na normalização dessa violência disfarçada de afeto, ainda no pátio da escola, que plantamos as sementes de uma cultura que, mais tarde, pode florescer na forma de relações abusivas e, em seus casos mais extremos, do feminicídio. Ou seja, o problema é muito maior do que uma simples "brincadeira de criança".