Poeta Guilherme Mossini Mendel
"Quem escala montanhas se fortalece. Quem procura atalhos acaba se perdendo."
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Textos

 

 

BIOGRAFIA:

 

Aline Bischoff é uma escritora e artista múltipla, nascida em São Paulo e residente em Osasco. Com dupla cidadania e raízes profundas na Croácia, ela transforma a herança cultural de seus antepassados em inspiração constante para a sua obra. Sua trajetória artística começou cedo e abrange a música (com atuações como pianista e coralista) e o teatro. Na literatura, estreou como autora premiada em 2019 e construiu uma carreira sólida, marcando presença em mais de 50 antologias e 80 revistas literárias, com textos que já alcançaram leitores em mais de quinze países.

 

Além de poeta, Aline atua ativamente como pesquisadora histórica, com foco na imigração eslava e na cultura paulista, e como produtora de projetos culturais. Estudante de Letras e representante de instituições de peso, como a União Brasileira de Trovadores, a Academia Virtual de Autores Literários do Brasil e a Confraria Internacional de Literatura e Artes, ela se destaca pela dedicação ao rigor técnico da poesia e pelo compromisso contínuo com a preservação da memória e a difusão da arte.

 

 

 

Guilherme Mossini Mendel: Você tem dupla cidadania e uma ligação muito forte com a Croácia por conta da história da sua família. Como as lembranças e as tradições trazidas pelos seus avós acabam aparecendo na poesia que você escreve?

 

Aline Bischoff: As lembranças da minha família estão muito presentes na minha escrita. Lembro dos meus avós conversando em croata, das receitas típicas preparadas pela minha avó, das histórias sobre a viagem de navio e dos lugares por onde passaram até chegarem ao Brasil. Também preservo documentos emigratórios, fotografias, cartas e outros registros que ajudam a manter viva essa memória. Tudo isso acaba se transformando em poesia. Procuro escrever não apenas sobre os fatos, mas também sobre os sentimentos que envolvem essa trajetória, complementando os poemas com dados históricos da Croácia e do processo de imigração, fruto das minhas próprias pesquisas. Dessa forma, minha poesia se torna um espaço de preservação da memória, da identidade e da herança cultural deixada pelos meus antepassados.

 

 

GMM: Antes de focar na literatura, você estudou piano, cantou no coral da USP e até fez teatro. Essa sua vivência com a música e com os palcos te ajuda na hora de dar ritmo e sonoridade aos versos?

 

AB: Sim, acredito que essas experiências influenciaram bastante a minha forma de escrever. O estudo do piano me ensinou a perceber ritmo, pausas e cadência, enquanto o coral despertou uma atenção maior à sonoridade das palavras e à musicalidade da língua. Já o teatro contribuiu para a expressão, a sensibilidade e a construção das imagens e emoções. Mesmo atuando hoje principalmente na literatura, levo comigo esses aprendizados. Eles acabam aparecendo de forma espontânea na escolha das palavras, no ritmo dos versos e na maneira como procuro transmitir emoção ao leitor. Acredito que as diferentes linguagens artísticas dialogam entre si e enriquecem o processo criativo.

 

 

GMM: Hoje em dia, muitos poetas preferem escrever usando o verso livre, sem amarras. Mas você atua em organizações voltadas para a Rima Jotabé e para a trova. O que mais te fascina nessas formas de poesia que exigem métricas e rimas exatas?

 

AB: Gosto muito da liberdade que o verso livre oferece, mas também me fascina o desafio das formas fixas. Escrever dentro de uma estrutura com métrica, rima e, muitas vezes, um número limitado de versos exige um exercício constante de síntese, precisão e criatividade. É como lapidar uma joia: cada palavra precisa estar exatamente no lugar certo. A Rima Jotabé e a trova mostram que a técnica não limita a inspiração; pelo contrário, ela a impulsiona. Encontrar o equilíbrio entre forma e emoção é um desafio que me motiva e, ao mesmo tempo, contribui para preservar tradições poéticas que fazem parte da nossa cultura literária.

 

 

GMM: Sua estreia oficial no meio literário foi no festival de Osasco em 2019, onde você já ganhou dois prêmios logo de cara. Como foi o desafio de tirar os poemas da gaveta e apresentar o seu trabalho para a avaliação de outras pessoas pela primeira vez?

 

AB: Foi um momento de muita expectativa. Até então, meus poemas eram algo muito pessoal, escritos sem a pretensão de serem publicados ou avaliados. Decidir compartilhá-los foi um grande passo, porque sempre existe aquele receio de como o outro irá receber aquilo que escrevemos. Ser premiada logo na minha primeira participação foi uma surpresa muito feliz e, ao mesmo tempo, um incentivo para continuar escrevendo e acreditando no meu trabalho. A partir dali, percebi que a poesia podia ultrapassar o espaço íntimo e estabelecer um diálogo com outras pessoas, despertando sentimentos e reflexões. Acho que esse foi o maior aprendizado que aquele festival me proporcionou.

 

 

GMM: Você tem textos em mais de 50 antologias espalhadas pelo Brasil e pelo exterior. Pensando na carreira de quem escreve, como você avalia os prós e os contras de participar dessas obras em grupo, em comparação com o trabalho de produzir e publicar um livro solo?

 

AB: Acredito que as duas experiências são muito importantes e se complementam. Participar de antologias permite que o autor alcance novos leitores, conheça escritores de diferentes regiões e estilos e passe a integrar uma rede de intercâmbio cultural muito rica. Foi justamente por meio dessas publicações que muitos dos meus poemas chegaram a pessoas de outros estados e até de outros países. Por outro lado, o livro solo representa um projeto mais autoral, em que é possível construir uma unidade temática e estética, oferecendo ao leitor uma visão mais ampla do universo criativo do escritor. Cada formato tem seus desafios e suas vantagens. As antologias ampliam o diálogo e a visibilidade; o livro solo exige um planejamento maior, mas proporciona uma experiência mais completa tanto para quem escreve quanto para quem lê. Penso que um não substitui o outro, e sim que ambos contribuem de maneiras diferentes para a formação da carreira literária.

 

 

GMM: Seus poemas já chegaram a mais de quinze países e você até atua como jurada em concursos internacionais. Na sua opinião, o que faz um texto literário tocar pessoas de culturas tão diferentes e ultrapassar fronteiras?

 

AB: Acredito que, embora cada povo tenha sua própria cultura, existem sentimentos que são universais. O amor, a saudade, a esperança, a perda, a memória e a busca por pertencimento fazem parte da experiência humana, independentemente do país ou do idioma. Quando um texto é escrito com sinceridade e sensibilidade, ele consegue estabelecer essa conexão. É claro que cada leitor fará sua própria interpretação, influenciada por sua vivência, mas é justamente isso que torna a literatura tão rica. Para mim, a poesia tem essa capacidade de criar pontes entre culturas diferentes, mostrando que, apesar das nossas particularidades, há emoções e histórias que nos aproximam.

 

 

GMM: Você está cursando Letras atualmente. Estudar a língua e a literatura a fundo tem mudado o seu jeito de escolher as palavras ou de organizar os seus poemas?

 

AB: Sim, sem dúvida. O curso de Letras tem ampliado muito o meu olhar sobre a linguagem e sobre a própria literatura. Estudar teoria literária, linguística e a história da literatura me faz refletir mais sobre as escolhas lexicais, os recursos expressivos e os efeitos que cada palavra pode produzir no leitor. Ao mesmo tempo, procuro preservar a espontaneidade da escrita. Não quero que o conhecimento técnico substitua a emoção, mas que a aperfeiçoe. Acredito que estudar Letras tem me dado mais consciência do processo criativo, permitindo lapidar os poemas sem perder a autenticidade da voz que construí ao longo da minha trajetória.

 

 

GMM:  Em que circunstâncias a leitura entrou na sua vida e qual a importância dela para você?

 

AB: A leitura entrou muito cedo na minha vida, graças ao incentivo da minha família e das minhas professoras. Quando criança, eu ganhava muitos livros de presente e minha mãe costumava me levar para passear na Livraria Siciliano, no centro de Osasco, e também às bancas de jornais. Nesses lugares, eu tinha a liberdade de escolher o que queria ler, sempre guiada pela curiosidade. Antes das férias escolares, ia à biblioteca da escola e retirava o número máximo de livros permitido para garantir minhas leituras durante aquele período. Como isso não era suficiente, duas professoras me emprestavam livros de suas bibliotecas particulares, ampliando ainda mais o meu contato com a literatura. Foram gestos de incentivo e generosidade que marcaram profundamente a minha formação. Cresci cercada pelos livros e desenvolvi um amor muito natural pela leitura. Até hoje, ler é um momento sagrado para mim, um espaço muito particular de encontro com novas ideias, emoções e descobertas que sempre ampliam a minha forma de ver o mundo.

 

 

GMM: Na sua visão, qual é a importância da poesia na vida das pessoas?

 

AB: Acredito que a poesia tem o poder de transformar o nosso olhar sobre o mundo. Ela nos convida a perceber a beleza que existe no cotidiano, nos pequenos gestos, nos detalhes que muitas vezes passam despercebidos pela correria da vida. Mais do que um gênero literário, a poesia desperta uma sensibilidade que nos faz atribuir novos sentidos e significados às pessoas, às experiências e às situações que vivemos. Penso que ela molda um olhar mais atento, mais humano e mais contemplativo. Quando isso acontece, a poesia deixa de estar apenas nos livros e passa a fazer parte da própria maneira como enxergamos a vida, enriquecendo a nossa trajetória pessoal.

 

 

GMM: Quais são os autores, vivos ou mortos, que mais lhe marcaram? Há algum que você considera um mestre ou referência constante?

 

AB: Ao longo da minha formação como leitora, muitos autores me marcaram em diferentes momentos. Na poesia, tenho grande admiração por Cecília Meireles, pela delicadeza e musicalidade dos versos; por Carlos Drummond de Andrade, pela profundidade e sensibilidade do olhar sobre a condição humana; por Alphonsus de Guimaraens, cujo lirismo e espiritualidade sempre me encantaram; e por Mario Quintana, pela simplicidade apenas aparente de sua escrita, capaz de revelar profundas reflexões sobre a vida com leveza, sensibilidade e um olhar poético singular. Também admiro Henriqueta Lisboa, pela delicadeza e refinamento da linguagem, e Vinícius de Moraes, pela musicalidade e pela intensidade emocional de sua poesia. Entre os grandes clássicos, Luís de Camões e William Shakespeare são referências indispensáveis pela riqueza de suas obras e pela universalidade de seus temas. A poesia de Castro Alves, Álvares de Azevedo, Florbela Espanca e Lord Byron também me marcou profundamente pela força lírica, pela expressividade e pela intensidade dos sentimentos. Não diria que tenho um único mestre, mas um conjunto de autores que me acompanham como leitora e inspiram a minha trajetória. Procuro aprender com cada um deles, sem deixar de buscar uma voz própria naquilo que escrevo.

 

 

GMM: Para você, o que torna um poema realmente bom? E qual é o favorito dentre os poemas de sua autoria? Poderia compartilhá-lo para que possamos publicá-lo em destaque?

 

AB: Acredito que um bom poema é aquele que consegue estabelecer uma conexão genuína com o leitor. Mais do que obedecer à técnica, à métrica ou às rimas, ele precisa transmitir emoção, despertar reflexões ou fazer com que a pessoa enxergue algo por uma nova perspectiva. A técnica é importante e contribui para a construção do poema, mas ela deve estar a serviço daquilo que se deseja comunicar. Quando forma e sensibilidade caminham juntas, a poesia ganha força e permanece na memória de quem a lê.

 

Escolher um poema favorito é uma tarefa difícil, porque cada um representa um momento da minha trajetória e carrega sentimentos muito particulares. Ainda assim, tenho um carinho especial por "Estranha Habitação". Nele, transformo o meu coração em uma casa habitada por escritores que marcaram minha formação como leitora e poeta. É um poema que fala sobre memória, influência, afeto e diálogo entre gerações de autores, mostrando que cada leitura deixa uma marca em quem escreve. Além disso, foi um poema que me trouxe muita alegria ao ser premiado em um concurso nacional de poesia. Por isso, fico feliz em compartilhá-lo com os leitores.

 

 

 

ESTRANHA HABITAÇÃO

 

 

I

 

O meu peito é morada de numerosos escritores,

Mas seria uma casa vazia, se não fosse a poesia.

Nele plantei um jardim de rosas para a Cecília(¹),

Onde ela rega seus doces e perfumados amores.

 

No quarto do Vinícius não há teto, nem chão(²).

O do Mário tem as paredes todas brancas,

Repletas de desenhos feitos por crianças(³).

É uma casa intensa e permeada pela emoção!

 

E vem sempre gente nova chegando.

Tem pessoas rindo, outras chorando,

Às vezes reclamando, ora inventando,

Por vezes viajando ou se apaixonando.

 

Houve quem pelo caminho tropeçasse,

Esbarrando em pedras pelo percurso(4),

Mas que pela porta dourada entrasse,

Exclamando vitorioso o seu discurso.

 

 

II

 

Há vozes ocultas e desconhecidas,

Por vezes oprimidas em suas lutas.

Dispostas companhias bem-vindas,

Com inspiradas opiniões resolutas.

 

Nessa viva residência multicolorida

Revivemos as lembranças saudosas,

Aprendemos preciosas lições de vida,

E trocamos experiências proveitosas.

 

Convivem todos em plena harmonia,

Apesar de trazerem variados estilos,

São interligados por notória sintonia,

Que os fazem afetuosos e tranquilos.

 

Meu coração, essa estranha habitação,

É o recanto das mais diversas histórias,

Escritas por penas de ilustres memórias.

Uma casa enorme, em eterna construção!

 

 

Aline Bischoff

 

________________________________________________________________________

1. Referência a série das cinco poesias “Motivo da Rosa”, de Cecília Meireles.

2. Referência a conhecida canção popular “A Casa”, de Vinícius de Moraes.

3. Referência a citação de Mário Quintana: “Os livros de poemas devem ter margens largas e muitas páginas em branco e suficientemente claros nas páginas impressas, para que as crianças possam enchê-los de desenhos — gatos, homens, aviões, casas, cachorros, cavalos, boi, tranças, estrelas — que passarão também a fazer parte dos poemas.”

4. Referência ao famoso poema “No Meio do Caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, uma metáfora aos obstáculos que enfrentamos na vida, mas que não nos impedem de conquistar o que almejamos.

 

 

 

 

 

GMM: Com uma trajetória que envolve música, pesquisa, teatro e muita poesia, quais são os seus próximos passos? Há algum projeto novo ou livro saindo do forno que você já possa adiantar para os leitores?

 

AB: Tenho procurado ampliar cada vez mais os caminhos da minha atuação artística e cultural. A literatura continua sendo o eixo central da minha trajetória, mas, nos últimos anos, também tenho me dedicado ao audiovisual. A experiência de dirigir o documentário Pokrova – Imigração Ucraniana em Osasco abriu novas possibilidades de expressão e mostrou que o cinema documental também pode preservar memórias, valorizar identidades e contar histórias que merecem ser conhecidas. A repercussão do filme superou as minhas expectativas: além da excelente recepção do público, especialmente da comunidade ucraniana, o documentário recebeu reconhecimento em mostras e festivais, conquistando premiações e alcançando também uma audiência internacional. Essa experiência reforçou minha convicção de que a arte pode preservar histórias locais e, ao mesmo tempo, dialogar com pessoas de diferentes culturas.

 

Atualmente, estou desenvolvendo um novo documentário sobre uma instituição brasileira que, há décadas, realiza um trabalho de grande relevância social e cultural em todo o país. Ainda não posso revelar mais detalhes, mas é um projeto que me entusiasma muito e que reafirma meu interesse por produções que unem pesquisa, memória, cultura e transformação social.

 

Paralelamente, continuo escrevendo poesia, participando de projetos culturais e desenvolvendo novas pesquisas. Também tenho novos projetos editoriais em fase de amadurecimento, que pretendo compartilhar no momento oportuno. Gosto de explorar diferentes linguagens artísticas, mas todas elas têm um propósito em comum: preservar memórias, contar histórias e despertar reflexões.

 

 

 

 

Guilherme Mossini Mendel e Aline Bischoff
Enviado por Guilherme Mossini Mendel em 04/07/2026
Alterado em 04/07/2026
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