Entrevista com o músico e poeta Fábio Belluci Dantas
BIOGRAFIA: Eu nasci em Marília (interior do estado de São Paulo) em julho de 1991, mas sempre morei na cidade de São Paulo. Componho músicas, majoritariamente no estilo Punk Rock, desde a pré-adolescência e integro a banda Cólera desde 2014, para a qual também componho letras e arranjos. Também faço parte de uma banda chamada Epidemia desde 2023 e tenho um projeto solo intitulado “Ofensiva Sonora”, no qual gravo todos os instrumentos, componho, produzo e gravo sozinho. Neste ano de 2026 lancei virtualmente a minha primeira coletânea de poemas “Terra Assombrada”, explorando abordagens além da temática mais habitual de denúncia social das minhas letras de música, como o existencialismo/pessimismo filosófico, gnosticismo e humor negro. Possuo graduação em Sociologia, obtida em 2017.
Guilherme Mossini Mendel: Quem é Fábio Belluci Dantas? Como você se apresenta e se define para o público?
Fábio Belluci Dantas: Eu sou fanático por Punk Rock dos anos 70 e Hardcore dos anos 80 de diversos países, mas também gosto de outros gêneros musicais, como música folclórica e reggae. Mas não tantos outros! Acho que é bom delimitar de certa forma o que gostamos. Às vezes, quem tem um gosto amplo demais acaba não se aprofundando em coisa alguma! Basicamente, o que tenho a dizer pra essa apresentação é que eu crio a minha arte por necessidade, pra deixar a minha marca no mundo. Pode não ser importante no “grande esquema das coisas”, mas importa pra mim e espero que pra mais algumas pessoas.
GMM: Em que fase da vida a música despertou seu interesse e quando decidiu se dedicar a ela? Quais estilos musicais mais o inspiram?
FBD: A minha mãe é professora de piano, então cresci na escola de música. Comecei a tocar violão com 8 anos. Nunca decidi me dedicar à música, foi algo que sempre me acompanhou ao longo da vida, sempre foi o que eu mais gostei. Quando comecei a ouvir Punk Rock, aquilo me estimulou a tentar compor músicas. Entrei pra uma banda chamada Sociedade Sem Hino no final de 2005. Estávamos na sétima série. Por causa dessa banda, conheci o Redson. Na época, ele tinha uma conta no Orkut e anunciava que fazia produção pra bandas. Ele compareceu a um ensaio nosso, produziu gravações e sempre esteve com a gente. Essa banda existiu até 2012. O Wendell fez parte dela e entrou pro Cólera quando o Redson faleceu, e eu fui convidado um pouco depois, em 2014. O Punk Rock foi o que sempre me inspirou. Mesmo quando eu bebo de outros estilos não deixo de fazer Punk Rock. Neste exato momento estou ouvindo Kryzys, uma banda clássica de Punk/Reggae da Polônia.
GMM: Quando e com quem você descobriu a poesia? Em que momento percebeu que ela fazia parte de você?
FBD: Eu escrevo letras de Punk Rock desde 2004. A primeira foi "Vida No Farol", que está no disco “Subterrâneo da Epidemia”. A principal forma de poesia pra mim sempre foi a letra de música. Aqui no Brasil o Cólera foi a minha maior referência. Mais recentemente na minha vida, um livro que me inspirou muito foi “O Único e a sua Propriedade”, do Max Stirner, que influenciou um pessoal de vanguardas artísticas. Embora seja uma obra de filosofia, tem momentos poéticos fortes. Enfim, por todos esses anos, escrevi basicamente letras de Punk Rock. Mas, de uns 10 anos pra cá, compus três poemas ("Terra Assombrada", "Todo Anjo É Terrível" e "Porta Estreita") que diferiam do tipo de coisa que eu costumava escrever, que em geral seguiam mais uma linha da denúncia social. Esses poemas incorporam mais filosofia e até especulações sobre o dito sobrenatural(!). Eu sempre achei esses poemas um tanto deslocados, mas recentemente escrevi "Lugar Sombrio", e esses quatro foram a base pela qual comecei a coletânea “Terra Assombrada”.
GMM: Como a leitura entrou na sua vida e qual a importância que ela tem para você hoje?
FBD: O colégio em que eu estudei no fundamental fazia a gente visitar a biblioteca acho que de duas em duas semanas e alugar um livro, e eu sempre lia o livro que eu alugava. Por causa disso, eu li bastante nessa fase da minha vida e acho que escrevo relativamente bem, mesmo sem saber direito as regras gramaticais, muito por causa disso! Procuro manter um hábito de leitura. Sempre que posso estou lendo algo, e as ideias pra letras de música e poemas acabam surgindo espontaneamente. Sou formado em Sociologia. Isso me ajudou a me habituar com a leitura de coisas mais complexas e nem sempre agradáveis! Às vezes sonho que estou lendo algum livro obscuro.
GMM: Quais artistas, vivos ou já falecidos, mais o marcaram? Há algum que você considera mestre ou referência constante?
FBD: O Redson, que é a minha maior referência pra composição de letras em português. O The Clash e o Stiff Little Fingers são duas bandas muito importantes pra mim. Post Regiment e Yanka Dyagileva, do leste europeu. O pensamento do Max Stirner permeia praticamente tudo o que eu escrevi de uns 10 anos pra cá. A partir dele percebi o vício essencialista do pensamento ocidental e fui adquirindo confiança pra me apropriar da linguagem à minha maneira, por mais esquisito que seja o resultado! Mais recentemente eu li a obra "The Gnostic Religion", de Hans Jonas, e ela teve um grande impacto na minha produção poética, pois explorei as possibilidades de uma cosmogonia gnóstica na coletânea “Terra Assombrada”. O filme “Matrix” também bebeu dessa fonte, mas me incomoda nele a falta de um senso de humor. Prefiro a sátira de um "Incrível Exército De Brancaleone"!
GMM: O que você busca nas suas composições? Qual é sua intenção ou desejo ao criar uma letra de música ou um poema?
FBD: Ao criar uma letra de música, geralmente faço uma denúncia social, embora procure às vezes introduzir influências diversas e mais ou menos inusitadas. Os poemas já tratam mais do estranhamento da condição humana, do mistério e da hostilidade do cosmos, com toques de humor negro, do bizarro, ridículo, tosco e grotesco. Tudo isso faz parte da experiência da vida, embora uma certa arte “refinada” queira empurrar essas coisas pra debaixo do tapete.
GMM: Há alguma criação favorita ou uma que tenha marcado sua trajetória? Poderia compartilhá-la conosco?
FBD: "Repetição Constante", que foi a primeira composição que fiz pro Cólera. É sobre propaganda e como movimentos autoritários tiram proveito da vulnerabilidade das pessoas. (Assista ao vídeo da música aqui)
Quando você estiver cansado
Quando você estiver frustrado
Eles virão lhe estender a mão
Prometendo a salvação
Você estava vulnerável
Você estava sugestionável
ALGO MORREU NAQUELE INSTANTE
MUDANDO O SEU SEMBLANTE
QUANDO VOCÊ SE ENTREGOU
À REPETIÇÃO CONSTANTE
Quando você estiver desamparado
Acreditando que tudo está perdido
Eles virão com a propaganda
Insistente, onipresente
Não questione, confie no plano
Nosso grande líder já sabe o que
fazer
Quando você estiver cansado
Quando você estiver frustrado
Eles virão com a solução
Exigindo mobilização
GMM: Na sua visão, qual é a importância da arte e da cultura na vida das pessoas?
FBD: Importante como autocriação da personalidade, o que vai além da identidade. Para o desenvolvimento do senso crítico e muitas outras faculdades. Importante como distração da realidade brutal, não dá pra encarar ela de frente o tempo todo! Mas aí mora o perigo de um autoengano. Penso que a arte deve ser para a nossa satisfação, não um objeto de culto, algo que exige sacrifício.
GMM: Como nasce um poema ou uma letra de música para você? Existe algum processo criativo, ritual ou circunstância que favoreça sua escrita?
FBD: Me mantenho curioso, lendo, assistindo a filmes, documentários, acompanhando as notícias, refletindo. Algumas ideias dão fruto, outras nem tanto. O que importa é ir tentando, juntar material e ir depurando. Na composição de músicas, a harmonia é fundamental e dita o direcionamento. Tenho que encaixar a letra na base instrumental. Às vezes acontece de eu já ter algo escrito e conseguir colocar; às vezes começo a letra do zero, já havendo a harmonia (sequência de acordes).
GMM: Onde o público pode encontrar suas composições e acompanhar seu trabalho?
FBD: Os dois álbuns da Ofensiva Sonora e a coletânea de poemas estão disponíveis pelo link: Ofensiva Sonora. O Cólera tem site, mas hoje em dia as pessoas acessam mais o Instagram, e o nosso é atualizado e bem cuidado! Tem também o Instagram da Epidemia. E o meu pessoal, que uso também pra divulgar os meus trabalhos.
GMM: Que projetos artísticos você sonha realizar nos próximos anos?
FBD: Continuar produzindo músicas e poemas. Tenho material pronto a ser lançado. Há uns anos, escrevi um projeto de revista de sátira um tanto nonsense. Quem sabe esse material não vem à luz!
GMM: Fábio, confesso que me senti minúsculo para entrevistar alguém tão maiúsculo. Conheci sua obra como o novo guitarrista da banda Cólera, substituindo o lendário e saudoso Redson, um dos meus maiores ídolos. Porém, pesquisando sobre você e lendo o material que me enviou previamente, tomei conhecimento do seu trabalho com a banda Epidemia e do projeto solo “Ofensiva Sonora”, todos brilhantes. Sendo assim, surgem aqui três perguntas:
1ª Qual é o sentimento de integrar uma banda icônica como a Cólera e substituir o empolgante e genial Redson como guitarrista e, muitas vezes, como compositor?
FBD: Pra mim não poderia haver satisfação maior. Eu sou fã desde os 12 anos de idade! Eu conheci bem o Redson, então penso nele como o cara com que eu convivi, ele era um cara tranquilo que valorizava a expressão convicta e sincera. Acho que isso tira um tanto o peso de ter que substituir alguém que é referência pra tanta gente e foi um artista excepcional.
2ª Como é conciliar tantos projetos em dias tão curtos? Quantos Fábios existem em um só? Como você organiza sua energia criativa entre tantas frentes?
FBD: Quando um projeto está um pouco mais em "off", eu me dedico mais a outros. Assim dá pra desenvolver todos! Por exemplo, desde a pandemia eu já pensava num repertório novo pro Cólera; então, agora que a gente quer gravar um disco com inéditas, já tinha um material preparado. Às vezes eu tento compor uma música nova, não consigo, mas percebo que de uma ideia não tão desenvolvida de anos atrás pode surgir algo legal.
3ª Há algum projeto que eu não tenha mencionado? Ou você vai continuar me surpreendendo e afirmar que faz ainda outras atividades, de forma excelente, como as anteriormente citadas?
FBD: Só a revista satírica mesmo, que é a única prosa que eu tenho mais ou menos preparada. Sou um tanto impaciente pra prosa, inclusive pra ler!
GMM: Que mensagem você gostaria de deixar para quem acompanha sua obra ou está conhecendo agora?
FBD: Pra mim é muito importante pesquisar bandas de diversos países, independente de terem ou não reconhecimento. A gente é condicionado a achar que o bom é aquilo que aparece (o "valor de mercado"). Não existe nada mais anti-punk do que reduzir o Punk a Ramones, Sex Pistols e The Clash. Tem muito mais coisa, e às vezes temos que ir à caça pra descobrir, porque nem tudo cai no nosso colo. Como o Redson escreveu, "pra ter cultura é preciso ousar"! Dei um exemplo na música, mas o mesmo vale pra outras formas de arte. Penso que o artista tem que ter essa inquietação, tem que sempre estar procurando. Não pode ficar parado. Pra finalizar, agradeço imensamente pelo convite e por todo o apoio que você me deu. E parabenizo a iniciativa de manter esse espaço de diálogo com pessoas que levam a sua arte a sério, independente do comercialismo e da padronização estética reinante.