BIOGRAFIA: Sou estudante de Direito, atualmente no 9º semestre, e escrevo desde a infância, quando meus primeiros cadernos eram preenchidos por versos tortos e rimas inventadas. Desde então, a poesia tornou-se meu principal modo de expressão. É através dela que organizo sentimentos, encontro sentido nas experiências e torno o mundo um pouco mais leve.
Tenho poemas publicados em coletâneas pelas editoras Fênixart, Quimera Antologias, incluindo “Poesias e Cartas para Todas as Mães III”, além de participações nas obras “Terra de Sol e Chuva”, pela Editora Malheiros, e também na Revista Animalista nº 04, da Cleópatra Cartonera.
Em 2025, aventurei-me na trova e conquistei o 2º lugar nacional no I Concurso Literário de Trovas e Poesias Clássicas, promovido pela Academia Campinense de Letras, com o tema Campinas, recebendo o título de Novo Trovador.
Guilherme Mossini Mendel: Quem é Ana Márcia Bordin? Como você se apresenta e se define para o público?
Ana Márcia Bordin: Sou estudante de Direito no 9º semestre, sou uma aluna da poesia, porque as coisas pequenas, os silêncios, as memórias e os afetos pedem voz. Comecei a publicar mais ativamente nos últimos anos, e em 2025 tive a alegria de ver meu nome em alguns lugares especiais:
- Fui finalista do 1º Prêmio Nacional Bem-Te-Vi de Literatura Infantil, com o conto Francisco e o silêncio das coisas pequenas (Physalis Editora / Instituto de Leitura Quindim) — uma história que fala de observar o mundo com olhos atentos e coração quieto.
- Participei da coletânea Pétalas de Sentimento — Celebrando as Mães em Verso e Prosa (Editora Fênixart), com o poema “Mãe de todas as almas”, que recebeu menção especial no Prêmio Phoenix 2025 na categoria Poesia.
- Conquistei o 2º lugar no Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras (2025), com uma trova sobre Campinas que me encheu de orgulho.
- E também fui semifinalista no Prêmio Literário Outono em Vários Tons (Editora Typus), com o poema “Eu nasci no outono”.
GMM: Quando e com quem você descobriu a poesia, e em que momento percebeu que era poeta?
AMB: Sempre amei escrever. Desde pequena, caderno na mão: historinhas, rabiscos, frases que eram versos sem nome. Guardava o mundo, cheiro de chuva, silêncio da casa, histórias da avó. Escrevia sozinha porque as palavras me deixavam respirar. Isso já era poesia.
Meu primeiro prêmio veio na escola: melhor redação no PROERD. Certificado e medalha que iluminaram tudo. Ali entendi: escrever não era só gosto, era necessidade. Sempre fui apaixonada.
A poesia veio devagar, com leituras que me marcaram. Mas o instante “sou poeta” foi quieto: reli textos antigos e eles ainda me emocionavam, como se tivessem vida própria. A poesia nunca me escolheu depois; ela sempre esteve na menina que amava escrever.
Hoje sigo apaixonada, compartilho mais e continuo aprendendo: sempre aluna da poesia.
Nunca achei meus poemas bons, por isso só comecei a postar agora. Guardei tudo por anos, achando que não eram “bons o suficiente”. Mas a vontade de soltar o que a alma sussurra venceu o medo. E, quando soltei, veio o reconhecimento: prêmios, menções honrosas.
Ainda duvido às vezes, mas sei: poesia não precisa ser perfeita. Precisa ser honesta.
GMM: Em que circunstâncias a leitura entrou na sua vida e qual a importância dela para você?
AMB: A leitura entrou na minha vida de um jeito bem aos trancos no começo. Quando era criança, tive muita dificuldade para ler: demorei para pegar o ritmo, confundia as letras, achava as palavras um desafio enorme e me sentia frustrada perto dos colegas que já liam fluindo. Era chato, às vezes até me dava vergonha.
Mas, com paciência da escola, da minha mãe me ajudando em casa e muita insistência minha, veio o estalo: de repente, não era mais esforço, era paixão. Comecei a devorar livros e a passar noites inteiras lendo, esquecendo do horário de dormir. As histórias me levavam para mundos que eu nem imaginava, me mostravam sentimentos que eu não sabia nomear e faziam eu me sentir menos sozinha.
Hoje, a leitura é essencial para mim, é inspiração, consolo, aprendizado que não acaba nunca. Quando leio, sinto que estou conversando com almas que entendem meus silêncios. Os livros me formaram como pessoa e como escritora: me ensinando a olhar o pequeno com atenção, a ouvir o que não é dito em voz alta e a escolher a palavra que toca de verdade.
Sem a leitura, eu não seria a mesma Ana. Ela é paixão que não envelhece, é casa, é o ar que respiro.
GMM: Quais são os poetas, vivos ou mortos, que mais lhe marcaram? Há algum que você considera um mestre ou referência constante?
AMB: O qual considero meu mestre e referência constante é Mario Quintana. Ele é o poeta das coisas simples, do humor delicado, da ironia suave, da saudade sem peso e de uma simplicidade genial. Seus poemas sussurram sobre o tempo que passa, a infância que fica, o amor que não explica e fazem tudo isso com uma leveza que parece fácil, mas é profunda.
GMM: O que você busca na sua poesia? Qual é a sua intenção ou desejo ao escrever?
AMB: Na minha poesia, busco dar voz à alma, à verdade e à vida, só isso.
Escrevo para capturar o que pulsa quieto: silêncios que gritam, afetos que não morrem, o pequeno que é imenso.
Minha intenção é simples: transformar sentimento em presença, fazer o leitor sentir que não está só nos sussurros do peito. Quero que meus versos sejam um abraço discreto, acolham, curem um pouco a dor, celebrem o que ainda brilha.
Não busco aplausos, busco verdade: a minha, a da alma, a da vida como ela é frágil, profunda, cheia de memória e luz.
Escrevo porque preciso respirar pelas palavras. E espero que, ao ler, alguém respire junto.
É isto que me move: alma, verdade, vida.
GMM: Para você, o que torna um poema realmente bom? E qual é o favorito dentre os poemas de sua autoria? Poderia compartilhá-lo conosco para que possamos publicá-lo em destaque?
AMB: Para mim, um poema fica realmente bom quando consegue fazer o dia a dia ter alma outra vez. Quando pega aquelas coisas muito pequenas, muito gastas, muito de todo dia e de repente a gente vê que elas respiram, que elas doem, que elas guardam segredo, que elas são sagradas sem fazer pose de sagradas.
O poema bom é o que devolve ternura ao que a gente já não olhava, o que faz a gente parar no meio da louça, da faculdade, do trânsito e sentir um arrepio quieto de “nossa… isso aqui também é vida”. É quando a rotina vira verso sem deixar de ser rotina. Dos poemas que já escrevi, o que mais gosto é :
Num sussurro sem vento,
a borboleta farfalha
é o coração que rasga a casca
e sangra asa.
Antes, lodo cega,
dor que se comeu por dentro,
lagarta que morreu mil vezes
para caber no milagre.
Depois, o rasgo que dói doce,
asas molhadas de pranto e sol,
tremor de quem nasce duas vezes
e ainda treme de ser vivo.
Farfalha e o ar se parte,
cor que explode do nada,
liberdade que queima a pele
antes de voar.
É o amor que se desfaz
para virar voo,
o luto que vira asa,
o humano que morre inteiro
e renasce leve.
Farfalha uma vez
e o peito explode em silêncio:
toda casca é mentira,
toda asa é verdade nua.
Perfeito assim:
breve, feroz, frágil,
humano até o último tremor
de quem já foi larva
e agora
só sabe ser céu.
GMM: Na sua visão, qual é a importância da poesia na vida das pessoas?
AMB: Na minha visão, a poesia é uma das coisas mais vitais que existem na vida das pessoas, especialmente hoje, quando tudo parece correr rápido demais, raso demais. Eu amo livros e poesia (sou super suspeita para falar, admito), mas isso não muda o fato de que ela vai muito além de ser um "hobby bonito". Ela é essencial pra quem quer sentir a vida de verdade, não só passar por ela.
GMM: Como nasce um poema para você? Existe algum processo criativo, ritual ou circunstância que favoreça a sua escrita?
AMB: Quase sempre de um momento, um fato, um cheiro, uma sensação que me toca fundo e não solta mais. Não é algo que eu "decido" fazer; é algo que me acontece e me atravessa. Um cheiro de terra molhada depois da chuva me leva de volta pra infância e de repente está ali uma imagem querendo virar verso. Ou o jeito que alguém segura o copo de café com as duas mãos; isso já bastou pra nascer um poema inteiro sobre solidão disfarçada de rotina. São gatilhos sensoriais mesmo: cheiros (café fresco, perfume antigo de avó, mofo de livro velho), sons (respiração pesada de quem chora quieto), texturas (o frio do azulejo no pé descalço de manhã), ou uma frase solta que ouvi no mercado e ficou ecoando.
O processo criativo varia, mas tem uns padrões na minha vida:
- Os que explodem rápido: vêm em ondas emocionais fortes, tristeza aguda, raiva que queima, ou uma alegria que assusta de tão intensa. Nesses casos, pego o celular ou o caderno e escrevo tudo de uma vez, sem editar.
- Os que fermentam devagar: anoto uma imagem ou frase solta e deixo quieto. Dias, semanas, meses depois, volto e vejo que aquilo ganhou corpo sozinho no fundo da mente. Aí sim, sento pra construir. Esses exigem mais paciência e edição: troco palavras, corto versos que sobraram, leio em voz alta pra sentir o ritmo.
Sobre rituais ou circunstâncias que favorecem:
- Tento escrever de manhã cedo, é o momento em que minha mente está mais limpa, menos poluída pelo dia.
- Preciso de silêncio (ou no máximo música instrumental baixa, tipo piano solitário ou algo ambiente).
- E café. Sempre café.
Tem dias e meses que nada flui; e forçar só piora: vira texto morto, sem alma. Eu também fico quieta nesses períodos e aprendi a respeitar: é o cérebro dizendo "preciso descansar, absorver, viver mais um pouco antes de transformar". Não é preguiça nem perda de dom; é gestação. O que ajuda a voltar:
- Leio muito (poesia, prosa, qualquer coisa que me emocione) — alimentar a leitura é o que mais recarrega a escrita.
- Aceito o silêncio como parte do processo. Quando volto, os poemas vêm mais densos, mais verdadeiros.
No fundo, poesia pra mim não é obrigação diária; é uma forma de estar atenta ao mundo e a mim mesma. Quando estou aberta (e nem sempre estou), ela nasce dos momentos que me tocam. Quando não, eu relaxo a mente, vivo, sinto, e espero. Porque o que vem forçado trai a essência: ser honesta, crua, viva.
GMM: Quais são as suas principais publicações, seja em livro ou na internet, e onde o público pode encontrá-las?
AMB: Minhas principais publicações são poemas em coletâneas e antologias independentes, além de uma revista cartonera. Elas estão todas disponíveis digitalmente, na maioria das vezes para download gratuito direto nos perfis das editoras no Instagram.
GMM: Que projetos literários você sonha realizar nos próximos anos?
AMB: Nos próximos anos, sonho em expandir minha escrita para a área infantil, que me encanta cada vez mais, especialmente depois de participações em antologias adultas e da Revista Animalista. Quero criar poesias e talvez pequenos contos poéticos que falem direto ao coração das crianças, plantando sementes de imaginação, sensibilidade e conexão com o mundo ao redor.
