Ler "Contudo" é como atravessar um espelho rachado: cada estilhaço reflete uma parte de nós mesmos, às vezes bonita, às vezes sombria, mas sempre verdadeira. Guilherme Mossini Mendel constrói uma obra que não é apenas um conjunto de poemas, mas um mergulho visceral na condição humana — suas dores, seus dilemas, suas contradições e também suas potências.
Desde as primeiras páginas, somos lançados em um território de introspecção. Os poemas da primeira parte, "Consciência", trazem um tom quase confessional. A solidão não é tratada como ausência de companhia, mas como a dificuldade de habitar a si mesmo. O “mal que há em mim” surge como presença constante, que ameaça, domina e precisa ser domado. O eu lírico não se esconde: fala de medos, inseguranças e da sensação de ser pequeno em um mundo que muitas vezes nos ignora. É uma parte que lembra muito um diário íntimo, mas com alcance universal, porque cada verso nos lembra de algo que já sentimos em silêncio.
Em "Contrapontos", o olhar se volta para fora. O poeta abre espaço para questionar a modernidade, a pressa, o consumo e o vazio social. Aqui, a crítica é direta e certeira: vivemos cercados de novidades descartáveis, enquanto o essencial se perde. Mendel denuncia a falta de empatia, a violência disfarçada, os preconceitos que corroem e a forma como nos deixamos levar pela superficialidade. É uma parte que pulsa como manifesto, e o leitor é desafiado a repensar sua própria posição no mundo.
Já em "Constatação", há uma mudança de tom. Depois da dor e da crítica, encontramos maturidade e serenidade. O amor, a amizade, a coragem e a persistência aparecem como antídotos contra o caos. Não se trata de uma solução fácil, mas de uma constatação: mesmo em meio às feridas, ainda é possível reencontrar abrigo no outro, nas pequenas coisas, no simples ato de tentar mais uma vez. O poema deixa de ser só denúncia e se torna também celebração.
A grande beleza de "Contudo" está no contraste entre brutalidade e delicadeza. Mendel escreve versos curtos, às vezes cortantes como navalhas, mas em outros momentos suaves como um afago. É um livro que alterna socos e carícias, sempre com uma autenticidade que salta das páginas. Nada aqui soa fabricado: é vida destilada em palavras.
Ao final da leitura, fica claro que não estamos diante apenas de poesia, mas de um exercício de humanidade. "Contudo" não quer ser um livro “bonito” — ele quer ser verdadeiro. Quer incomodar, quer emocionar, quer abrir espaço para que o leitor se enxergue e talvez se reconcilie consigo mesmo.
É, acima de tudo, uma obra de coragem: coragem de se desnudar, coragem de criticar o mundo e coragem de afirmar que, apesar de tudo, ainda vale a pena viver, amar e escrever.
(Resenha publicada originalmente no perfil de bookstagram @estantedakimmy.)