Poeta Guilherme Mossini Mendel
"Quem escala montanhas se fortalece. Quem procura atalhos acaba se perdendo."
Capa Textos E-books Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links
Textos

 

Entrevista com o artista visual e escritor paulista Luciano Buniak

 

 

BIOGRAFIA: Luciano Buniak nasceu em Catanduva, interior de São Paulo, em 1983. É servidor público estadual. Desde meados dos anos 2010, concilia a profissão com sua produção em artes plásticas e visuais – com foco na gravura e fotografia. Pai da Cecília. Vive e trabalha em Campinas/SP. Em 2024 publicou seu primeiro livro, “Hoje é meu aniversário”, um livro que relata, através de breves poemas e gravuras, o tempo que viveu fora do Brasil.

 

 

Guilherme Mossini Mendel: Quem é Luciano Buniak? Como você se apresenta e se define para o público?

 

Luciano Buniak: Luciano é um artista preso em uma vida de burocrata. A arte sempre esteve comigo em todas as fases de minha vida. Apesar disso, ou talvez por causa disso, acabei buscando uma atividade profissional a mais distante possível do mundo artístico. Hoje, trabalho em um órgão do governo do estado de São Paulo, em uma área totalmente burocrática. Ocorre, então (e é por isso a frase do início da resposta), uma inversão na ordem lógica da vida como ela deveria ser. O que mais me move, a arte, acaba sendo uma atividade para as horas de descanso, e o trabalho fica com a maior parte do tempo.

 

 

GMM: Enquanto artista, você se dedica às artes plásticas e visuais. O que você busca nas suas gravuras e fotografias? De que forma pretende mexer com o público?

 

LB: É preciso dizer que, durante minha vida, transitei por diversas formas da prática artística. Além da escrita e das artes plásticas, já experimentei a dramaturgia e a atuação para teatro, assim como a fotografia. Em todas as expressões, minha busca sempre foi a mesma: dar destaque ao detalhe, ao que passa despercebido ou que é percebido como de pouco valor pela maioria das pessoas. E, para isso, gosto de utilizar o contraste e o ponto de vista não usual. Desta forma pretendo que o público tenha sua atenção rapidamente capturada e possa perceber o que antes passava despercebido.

 

 

GMM: Quais técnicas ou estilos você mais gosta de explorar em suas gravuras?

 

LB: Gosto de fazer xilogravuras e linoleogravuras. A xilogravura é a gravura em madeira, tão antiga quanto a civilização, e no Brasil é bastante conhecida por causa da literatura de cordel. Já a linoleogravura usa a mesma técnica da xilo, mas, no lugar da madeira, utiliza-se o linóleo, que é um material produzido pelo homem, muito utilizado como revestimento no passado. Para mim, estas duas técnicas possuem tudo o que eu busco, como expliquei acima. São técnicas que permitem produzir obras com alto contraste, ligadas à arte popular marginalizada, e que são de fácil leitura por todos.

 

 

GMM: Na sua visão, qual é a importância da arte na vida das pessoas?

 

LB: Acredito que a arte surgiu junto com o primeiro humano. Ela é parte integrante de nós. Não existe civilização, países, tribos que não produzam arte. Para o indivíduo, tanto a produção quanto o consumo de arte permitem entrar em contato com algo superior a nosso corpo frágil e perecível. Então, para mim, a arte é uma forma de contato com o que transcende nossa vida, um encontro com a imortalidade.

 

 

GMM: Qual foi o momento em que você percebeu que queria se dedicar também à literatura e às artes visuais?

 

LB: Lembro perfeitamente do dia em que, ainda adolescente, após vivenciar um momento de crise familiar muito forte, me tranquei em meu quarto para escrever. Não sabia o que nem como faria, mas senti uma necessidade urgente de colocar pensamentos no papel. Foi quando descobri o efeito catártico da arte. Desde então, ela não deixou de me ajudar em meus momentos de crise; mas fazer isto era mais terapêutico do que artístico. A virada aconteceu quando eu comecei a trabalhar; virei adulto por assim dizer. E percebi que a vida, se eu nada mudasse, se resumiria a trabalho, descanso e alguma diversão eventual. Foi quando decidi que precisava fazer algo mais, e comecei a encarar todo tipo de arte como uma forma de sair da armadilha em que quase todos estamos presos.

 

 

GMM: Quais são os artistas, das letras ou não, que mais lhe marcaram? Há algum que você considera um mestre ou referência constante?

 

LB: Estou sempre consumindo produção de outros artistas. A lista é longa para citar todos, mas posso citar Kokoschka, que é mais conhecido como artista plástico, mas também escreveu livros e peças de teatro, e Samuel Beckett. Este último com certeza é minha maior referência. Além de uma obra gigante que ainda hoje é celebrada, ainda teve uma vida fascinante e pouco conhecida. Entre os brasileiros, com certeza o Goeldi, pelas gravuras, e Mário de Andrade, nas letras.

 

 

GMM: Em 2024, você lançou a obra poética “Hoje é meu aniversário”. Poderia nos falar sobre como esse livro foi concebido e o que ele representa para você?

 

LB: “Hoje é meu aniversário” apenas aconteceu. Quando eu decidi passar um período sabático na França, não tinha nenhuma intenção de produzir nada. Levei meu sketchbook e meu diário, mas apenas com a intenção de registrar os dias e lugares por onde passava. O que aconteceu foi que, assim como naquele dia da adolescência que mencionei anteriormente, estando lá, eu senti necessidade de transformar tudo o que estava vivenciando em arte. Mas a verdade é que nunca tive a intenção de fazer uma obra acabada e de publicar. Isso aconteceu depois, quando, após ter que regressar antes do previsto ao Brasil por causa de um problema de saúde na família, mostrei para uma amiga o que tinha escrito e desenhado, e ela disse que eu tinha algo pronto ali, e que era uma pena deixar aquilo escondido, sem que mais ninguém pudesse ver. Foi assim que o livro nasceu.

 

 

GMM: Como nasceram os poemas de “Hoje é meu aniversário”? Você já costumava escrever versos antes do processo de criação dessa obra?

 

LB: Quando senti a necessidade de expressar tudo o que estava vivenciando durante a viagem, o formato de versos apareceu para mim. O que foi estranho, pois, de todas minhas experimentações pelas diversas formas de expressão artística, nunca havia experimentado os versos. Havia, e ainda há, em mim uma forma de respeito pelo poema e pelos poetas. Acho que nunca vou conseguir fazer nada parecido com o que eles fazem, e é por isso que no prefácio do meu livro digo que não sou poeta e que o livro não é um livro de poemas. Voltando ao processo de escrita, todas as vezes em que eu me sentava em um banco de praça ou na cadeira de algum café eu abria meu caderno para desenhar ou escrever – em prosa, na verdade, o que me vinha, era a necessidade de escrever rápido, capturando apenas a essência, sem me prender a formas de prosa ou de desenho clássicos. Foi tudo muito natural e novo para mim. Eu apenas deixei que acontecesse.

 

 

GMM: Para você, o que torna um poema realmente bom? E qual é o favorito dentre os poemas de sua autoria? Poderia nos mostrá-lo, por favor?

 

LB: Gosto muito de poemas que dizem muito com poucas palavras. Gosto de sentir a densidade de cada palavra em um verso e admirar a habilidade do poeta em trabalhar tão bem com elas, as palavras.

 

O meu favorito é o que fala da morte escondida nas cidades:

 

 

Eu andava nas ruas

e via coisas lindas

e também coisas feias

Via vidas

 

Nas ruas, aqui, não há mortes ou vidas se acabando

 

Andar nas ruas é entrar em contato com a vida

A morte está escondida em algum quarto,

ou nos hospitais, ou nas casas de repouso

 

Andando nas ruas, entrava em contato com a vida dos outros

 

E minha vida? Congelada, pausada

À espera do retorno ao normal

O normal que nunca funcionou

 

 

GMM: De que forma sua atuação como servidor público dialoga (ou contrasta) com sua vida artística?

 

LB: Acho que já respondi a esta questão no começo. Gostaria apenas de acrescentar que, apesar do meu trabalho não me trazer recompensas emocionais, ele permite que eu tenha tranquilidade financeira e tempo para praticar minha arte. Um emprego que exige mais que 40 horas semanais do trabalhador e que paga mal inviabiliza algo tão importante na vida de todos que é o contato com a arte, para não falar das outras coisas boas da vida, como momentos com a família ou de lazer.

 

 

GMM: Onde o público pode encontrar as suas obras, tanto o livro “Hoje é meu aniversário” quanto as demais produções artísticas?

 

LB: “Hoje é meu aniversário” foi uma publicação independente de tiragem baixa. Mas o livro pode ser comprado sob demanda no site da Amazon. Minhas obras visuais, eu posto no perfil do Instagram que mantenho com uma amiga artista, a Deise. O perfil é o @lude_draw. Está um pouco desatualizado, mas prometo postar coisas mais recentes ali.

 

 

GMM: Que projetos artísticos, literários ou não, você sonha realizar nos próximos anos?

 

LB: Eu estou sempre produzindo, mas a maioria das coisas fica apenas para mim. O que pretendo compartilhar com o mundo é um romance que estou finalizando. Tenho trabalhado nele desde a publicação de “Hoje é meu aniversário”, e está sendo um processo riquíssimo de desafios e de recompensas.

 

 

Guilherme Mossini Mendel e Luciano Buniak
Enviado por Guilherme Mossini Mendel em 07/03/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Capa Textos E-books Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links