BIOGRAFIA: Joselma Noal, porto-alegrense, escritora, doutora em Letras, professora de Língua Espanhola da FURG, tradutora, autora de Aroma hortelã – conto, Duzentos – miniconto, Minis de quarentena – miniconto, Demorei a descobrir que meu pai era um guri – crônica, A memória é uma folha seca – romance, premiado pela Lei do Livro de Rio Grande, Enquanto as alamandas florescem – romance, disponível na Amazon, em formato digital, e Enredar-se – poesia. Tem contos, minicontos, crônica e poesia publicados em coletâneas e dois romances em coautoria. Coordena e organiza livros dos coletivos: Escritores de quinta e Mulheres de Escrita.
Guilherme Mossini Mendel: Quem é Joselma Noal? Como você se apresenta e se define para o público?
Joselma Noal: Sou mulher, feminista, escritora, professora e tradutora.
GMM: Quando e com quem você descobriu a escrita, e em que momento percebeu que era escritora?
JN: Sou apaixonada pela palavra escrita. Fui muito feliz quando aprendi a ler e escrever, porque poderia dar lugar às histórias que brotavam da minha cabeça, que eram muitas e seguem sendo muitas. Por muito tempo achei que sofria de alguma doença mental pelo turbilhão de ideias de histórias que se misturavam na minha cabeça; aliás, sofria muito de dores de cabeça na infância e adolescência. Quando li La loca de la casa e depois El peligro de estar cuerda, da Rosa Montero, autora que leio muito, mesmo antes da fama no Brasil, me senti abraçada e compreendida na minha “loucura criativa”. Escrevo literatura desde criança. Meu irmão esteve hospitalizado aos quatro anos e me encomendava histórias para levar ao hospital a partir de três palavras, sem nenhuma relação entre elas. Eu tinha oito anos e já fazia exercício de escrita criativa, vivia na infância uma rotina de escrita diária, estimulada pela família. Tive a sorte de nascer entre leitores, minha mãe, meus irmãos liam literatura e meu pai era um leitor de jornal diário. As professoras diziam que eu era muito criativa. Recebi o primeiro prêmio literário ao final do segundo grau (hoje ensino médio). Tratava-se de um concurso nacional para estudantes: o Prêmio Jovem Escritor – Concurso de Crônicas Lydia Moschetti II, promovido pela Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul. A premiação era a publicação do livro. Assim, autografei na Feira do Livro de Porto Alegre, em 1987. Ali, a Joselma adolescente decidiu que seria escritora. Agora, para me apresentar como escritora, levei muito, muito, muito mais tempo, só depois de muitas publicações e ainda muito insegura.
GMM: Quando a leitura entrou na sua vida e qual a importância dela para você?
JN: Minha mãe lia histórias infantis antes de eu ser alfabetizada, cresci amando ler e não vivo sem ler. Por um período da minha vida fiquei sem escrever literatura, mas jamais deixei de ler. Sou escritora porque sou leitora. Não acredito em escritor que não seja leitor. Não acredito em artista que não se nutra de arte, que não vá a show, cinema, teatro, museu, que não beba das fontes artísticas.
GMM: Quais são os escritores, vivos ou mortos, que mais lhe marcaram? Há algum que você considera um mestre ou referência constante?
JN: Difícil falar em referências, porque são muitas. Na minha formação como leitora e como escritora estão: Cecília Meireles, Érico Verissimo, Marina Colasanti, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Gabriel García Márquez, Alejo Carpentier, Eduardo Galeano, Rosa Montero e Juana Manuela Gorriti. Todos os citados são mestres; teria muitos outros a mencionar, mas selecionei aqui dez nomes. A maior referência, o grande mestre é, sem dúvida, Gabriel García Márquez.
GMM: O que você busca com a sua escrita? O que você mais gosta de escrever e qual é a sua intenção ou desejo ao produzir literatura?
JN: Escrevo porque preciso, é uma necessidade vital mesmo. Escrevo para conhecer melhor o mundo que me habita. Escrever sempre é um mergulho interno, potente e transformador. Escrevo para emocionar, para abraçar. Gosto de escrever todos os gêneros, mas a narrativa longa é a que mais me fascina.

GMM: Seu mais recente lançamento é a obra poética “Enredar-se”. Poderia nos apresentar esse trabalho e o que o inspirou? Além disso, qual é o seu poema favorito do livro? Você faria a gentileza de compartilhá-lo com o público?
JN: Após publicar seis livros de prosa, sendo: um livro de contos, dois de minicontos, um de crônicas, dois romances, fui desafiada a escrever poesia pelo meu editor, poeta e amigo Matheus Bibiano Branco, que sabe que sou escorpiana e não aguento um desafio. Na verdade, sempre tive um estilo poético na minha prosa, tenho muito amor e respeito pela poesia, por isso demorei tanto para me aventurar no gênero. Nem sei se sou poeta, mas tenho certeza de que sou escritora. O Enredar-se fala sobre a mulher-polvo que sou, trata de várias temáticas, porque sou múltipla. Ao final do livro escrevi um texto explicando um pouco sobre a obra. Reproduzo aqui um fragmento:
“Enredar-se é um convite a entrar na rede e a mergulhar em poemas tentáculos que exalam tintas de amor, de raiva, de anseio por viver, por recordar, por pensar o mundo, a escrita, a arte, a vida e a morte.
Escrevo movida à emoção, chorando, gritando, esbravejando, rindo, gargalhando. A minha singularidade está em ser plural e a literatura que me brota e me ampara é diversa, não me enredo em um único tema, não sou una, sou múltipla.”
O meu poema favorito está em destaque no livro bem no centro, em páginas pretas, é o único nomeado e intitulou o livro:
Enredar-se
No espelho
lá estão elas
a sorrir:
menina mulher senhora.
Moram juntas
mesmo corpo
entre abraços, gritarias
Nas manhãs,
enquanto
penteia cabelos,
escova dentes,
espia,
pela janela do banheiro,
chegar o dia.
Procura a beleza
de toda qualquer estação.
Boceja, ergue braços,
vira a cruz
dos que acreditam na vida.
Sonha
sempre
com sol de primavera,
e acorda
sempre
com desejo de café:
quente, forte, sem açúcar,
porque a doçura
lhe veio de nascença,
não mais a precisa.
O tempo vivido
faz brotar forte
a alegria
de quem sabe se divertir.
E se trabalha,
se estuda,
se escreve,
se traduz,
é porque o prazer
sabe ter tentáculos
como ela:
menina mulher senhora
polva.
GMM: Na sua visão, qual é a importância da poesia na vida das pessoas?
JN: A minha vida não existe sem poesia, não existe sem arte. Não sei dizer como a poesia está na vida das pessoas, gostaria que todas as pessoas tivessem a poesia carregada no olhar. Deve ser muito triste viver sem poesia, olhar o mundo com frieza e sem encontrar o abraço que vem da arte, da poesia. Arte deveria ser prato feito, estar na mesa como arroz e feijão, mas no nosso país que às vezes nem arroz e feijão o povo tem, fica difícil. É bom que agora temos um governo que olha para a desigualdade social e para o acesso à arte, embora ainda haja muito a ser feito.
GMM: Como nasce um poema para você? Aliás, de forma geral, existe algum processo criativo, ritual ou circunstância que favoreça a sua escrita?
JN: A escrita nasce por diferentes motivações: um objeto, um olhar, um cheiro, um gesto, uma palavra, uma emoção, uma memória, uma cena. Escrevo com diferentes emoções: raiva, saudade, tristeza, alegria, tudo me motiva. Não tenho ritual. Prefiro escrever no meu teclado do computador de mesa ruidoso do que no notebook. Temo perder minhas escritas, então tenho tudo no Google Drive. Também escrevo no celular no meu grupo whats comigo mesma: palavras-chave, que podem ser tanto ideias para romance, como poemas, minicontos. Nos últimos anos me favorece ter um escritório, no qual ninguém me perturba, meu espaço é respeitado.
GMM: Quais são as suas principais publicações, seja em livro ou na internet, e onde o público pode encontrá-las?
JN: A Editora Libertinagem vai lançar um box com os meus primeiros livros que estão esgotados: Aroma hortelã, Duzentos e Minis de quarentena.
No momento, Aroma hortelã (contos, Editora Movimento, em 2008) pode ser encontrado no site da Amazon ou em sebos. Duzentos (minicontos, Editora Kazuá, em 2018) e Minis de quarentena (minicontos, Editora Libertinagem, em 2021) podem ser encontrados em sebos.
Demorei a descobrir que meu pai era um guri (crônicas, Editora Libertinagem, 2022), A memória é uma folha seca (romance, Editora Libertinagem, 2024) e Enredar-se (poesia, Editora Libertinagem, 2025) podem ser encontrados no site da editora Libertinagem ou diretamente comigo. Enquanto as alamandas florescem (romance, 2025) está disponível em formato digital na Amazon.
Aos domingos estou com o projeto Drinque com poesia na minha página no Instagram, convido a me seguir e acompanhar por lá: @joselmanoal.
GMM: Que projetos literários você sonha realizar nos próximos anos?
JN: Tenho um projeto literário em realização: quatro romances com meus grandes temas de escrita: amor, memória e política, com atmosfera das estações. A memória é uma folha seca, premiado na Lei do Livro de Rio Grande, em 2022, é o outono. Enquanto as alamandas florescem é a primavera. Estou escrevendo o verão, já tenho o título, mas prefiro não revelar ainda. O inverno encerrará este projeto de narrativa longa.
