BIOGRAFIA: Sou filha do Adélio e da Maria Helena, irmã da Jordana. Graduada em Letras pela URI – Campus de Erechim; Especialista em Leitura, Produção e Reescritura Textual pela URI – Campus de Erechim; Mestre em Letras pela UPF e Doutora em Letras pela UFRGS. Professora de Língua Portuguesa e Língua Inglesa da Rede Municipal de Ensino de Getúlio Vargas/RS. Professora da URI – Campus de Erechim. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Patrimônio Histórico Material e Imaterial em Saúde (PAHMIS). Autora de vários artigos científicos, livros e capítulos. A letra me significa.
Guilherme Mossini Mendel: Quem é Mariele Zawierucka Bressan? Como você se apresenta e se define para o público?
Mariele Zawierucka Bressan: Não gosto muito de definições. Tenho certa dificuldade em dizer quem sou... Talvez, por quase nunca parar para pensar nisso. Vou seguindo a vida. Por vezes, a gente pode se confundir com o que faz. Dessa forma, posso dizer que sou a professora Mariele, aquela que dá aulas tanto na Educação Básica quanto no Ensino Superior, e sente-se orgulhosa disso. Faz questão, inclusive, de mencionar nas aulas para o curso de Pedagogia que teoriza pensando na prática que realiza com as crianças e adolescentes, já que ocupa lugar no conhecido “chão de fábrica”. Em outras palavras, tenta assumir a práxis.
Sou formada em Letras e tudo o que faço tem a ver com as palavras: desde as aulas que planejo e leciono até os rascunhos que, volta e meia, transformam-se em publicações. Não sou uma escritora, no sentido stricto. Escrevo, muitas vezes, pela força do lugar que ocupo e disso resultam textos teóricos – artigos, livros e capítulos. Em outras ocasiões, dou vazão àquilo que me constitui: a dimensão poética, sem a qual toda a vida perderia o sentido. Nestas, em específico, me debruço em um papel qualquer, ou mesmo em frente ao computador, e busco dar forma material ao que sinto, percebo e observo. É a literatura fazendo a sua parte na minha vida: uma forma de resistir ao real ou suportá-lo, já que a vida sempre segue, independentemente do nosso desejo. É a dimensão poética fazendo ver beleza até mesmo nos momentos em que uma mariposa cai no chão, depois de se consumir pela luz. Gosto de arte e de tudo que dela advém. Gosto de apreciar o ritmo das coisas. Gosto de transitar por lugares de apreciação. Por isso, acho que me constituo no paradoxo: entre a luz e a sombra; entre o som e o silêncio; entre o medo e a coragem. Sou, portanto, o que faço, o que não faço e o que ainda está por vir.
GMM: Quando e com quem você descobriu a poesia, e em que momento percebeu que era poeta?
MZB: Quando eu era criança, amava sentar no colo de meu avô João e ouvir suas histórias – reais ou inventadas. Penso que descobri a poesia nesses momentos, vinculados ao afeto e à simplicidade, antes mesmo de entrar na escola e ler Cecília Meireles ou Mario Quintana, antes mesmo de participar das maravilhosas aulas da saudosa professora Vera Sass, que nos ensinava sobre Teoria da Literatura. Nos bancos da faculdade, fui capaz de aprender a diferença entre um texto literário e os demais; entretanto, foi no colo do meu avô que já percebia que a vida tem uma dimensão poética, que as palavras podem ter múltiplos sentidos e que, por meio de um jogo, podem fazer rir ou chorar. Mas foi nos bancos da faculdade que me descobri poeta: quando, entre o trabalho como bolsista de iniciação científica e as aulas, eu sentava na cantina, na biblioteca ou no pátio da universidade e, sozinha, mesmo rodeada pelo alvoroço, típico da circulação das pessoas, eu escrevia. Colocava no papel uma palavra e outra e mais outra... apagava, riscava... relia... e aquilo que me soava interessante, ficava. Numa aula com a professora Sandra Munero, tive coragem de me expor. Ela foi uma grande incentivadora. Depois, um amigo radialista pediu que eu escolhesse alguns poemas, para que ele os recitasse em seu programa. Isso parou quando alguém me interpelou, falando de um poema de minha autoria que havia escutado. Eu fiquei constrangida e envergonhada – “ora, eu, uma escritora...”. Volta e meia, eu escrevia algo que considerava “bonito” e lia para alguém, normalmente, minha irmã. Parece que a gente sempre busca uma certa “aprovação”. Depois da graduação, o papel cedeu espaço para outras formas de escrita – a teórica. Não obstante, os rascunhos continuavam a receber os frutos da minha imaginação. Só que ficavam guardados. Até que decidi publicá-los, reunindo alguns dos textos que eu havia colecionado ao longo de todos esses anos.
GMM: Em que circunstâncias a leitura entrou na sua vida e qual a importância dela para você?
MZB: Como mencionei, amava sentar no colo do meu avô e ouvir as histórias dele. Penso que a leitura entrou na minha vida por meio de tais contações de história. Minha família nunca foi abastada, mas, de vez em quando, ganhava algum livro, a exemplo da coleção de contos de fadas, que eu folheava, antes de aprender a ler a palavra propriamente dita, e pedia que alguém os lesse pra mim. Minha tia lia com tal empolgação que, eventualmente, mudava uma fala ou outra de alguma personagem. Eu, imediatamente, a corrigia, pois sabia de cor todas as histórias. Depois disso, tive a oportunidade de estudar em uma escola em que a leitura era constantemente incentivada. Quando aprendi a ler com fluência, logo me associei à biblioteca pública municipal. Como naquele tempo não era perigoso para uma criança sair sozinha, a pé, pela cidade, eu tomava o rumo da biblioteca para retirar um livrinho ou, pelo menos, para andar por entre as estantes e me maravilhar com toda aquela imensidão de conhecimento. Leitura pra mim é isto: conhecimento! E eu sempre fui muito sedenta de querer saber mais. Além disso, a leitura é afeto e ponto de encontro. Penso que a leitura nos aproxima: de pessoas, de culturas, de mundos e, principalmente, de nós mesmos. A leitura é fonte de conhecimento, e o livro, ou qualquer outro suporte, torna-se a ponte pela qual se estabelece esse bom encontro entre o passado e o porvir. A leitura é o que nos emancipa, no sentido de que, sendo fonte de conhecimento, nos permite pensar sobre as coisas do mundo com mais clareza e ponderação. É, outrossim, uma das formas pelas quais as pessoas podem se conectar com o outro e consigo mesmas. Por essa razão, a leitura, seja do livro, da palavra, ou de qualquer outra materialidade, é tão importante, porque nos permite visualizar e traçar caminhos possíveis.
GMM: Quais são os poetas, vivos ou mortos, que mais lhe marcaram? Há algum que você considera um mestre ou referência constante?
MZB: Mario Quintana é meu preferido, em se tratando de literatura brasileira. Aprecio também Cecília Meireles. Gosto desses dois pela simplicidade. Há beleza naquilo que é simples, mas não simplório. Quando um poeta consegue transformar algo trivial em objeto de apreciação estética, eis que surge, diante dos nossos olhos, a linguagem poética e literária em sua maestria.
GMM: O que você busca na sua poesia? Qual é a sua intenção ou desejo ao escrever?
MZB: A minha escrita é fruto daqueles pequenos instantes em que consigo materializar em palavras um olhar, uma observação, um sentimento, uma percepção. Por vezes, escrevo apenas para que aquilo se torne um traço, uma marca. Outras vezes, escrevo para sublimar, dar vazão a algo que lateja. Penso que a escrita seja uma forma de cicatrizar. Ou seja, mesmo que a minha escrita não se torne objeto de leitura para ninguém, já produziu em mim um efeito: é uma costura.
GMM: Para você, o que torna um poema realmente bom? E qual é o favorito dentre os poemas de sua autoria? Poderia nos mostrá-lo, por favor?
MZB: Me inscrevo nos paradoxos. Ao mesmo tempo em que aprecio o ritmo, amo o silêncio. Gosto de ler rimas bem feitas; de acompanhar a sonoridade de um texto; de caminhar por seus trajetos formais e informais, por suas linhas – retas ou tortas. Gosto também de ler as possibilidades de sentido que podem ser conferidas a uma palavra ou expressão. Mas o que mais me chama a atenção é, como disse, a capacidade que alguns poetas têm de transformar o simples em algo profundo e estético. Quantas horas podemos ficar pensando sobre um determinado verso? Penso que são esses aspectos que constituem a linguagem literária em sua dimensão estética, somados à universalidade. O que torna um texto universal? A possibilidade de ser lido, relido, reconstruído em diferentes tempos e espaços, permanecendo um objeto de apreciação. São textos que, independentemente da forma, versam sobre o humano. São textos que capturam a natureza humana.
Meus textos ainda são da ordem do simplório. São escritas comuns. Entretanto, há aqueles que gosto mais. Posso citar os poemas “Tempo” e “Processo administrativo”, da obra “Escritos”, além do texto “Felício e Lucrécio”. Esta última, endereçada ao público infantojuvenil, é uma obra que narra o encontro entre a juventude e a experiência, além de celebrar a amizade, por meio de versos que conferem ludicidade ao texto.
Tempo
O tempo passa devagar
Tempo de vagar
Que lhe interessa viver
Devagar
Vagar
Vagando no tempo
Devagar
Como cruzar os mares de olhos fechados.
Processo administrativo
Lavro a ata presente
e dou por ausente
o ente, de então.
Doentes estão
os que narram os fatos
boatos –
chamam de ingratos
os sem gratidão.
Lavro a ata presente
e dou por encerrada a sessão.
Assino com sangue,
a despeito da decisão.
GMM: Na sua visão, qual é a importância da poesia na vida das pessoas?
MZB: Para responder, vou me apoiar em uma colocação de Ferreira Gullar de que gosto muito. Para o autor, "a arte existe porque a vida não basta". Assim como a leitura e a arte, a poesia (que é uma das formas materiais da linguagem literária – arte, portanto, que se dá a ler), na minha visão, é uma das ferramentas que podemos usar para nos salvarmos do real, que é avassalador. A poesia existe para conferir ao humano aquilo que é poético, sem o qual o real seria insustentável.
GMM: Como nasce um poema para você? Existe algum processo criativo, ritual ou circunstância que favoreça a sua escrita?
MZB: A minha escrita poética surge de pequenos momentos, a partir dos quais consigo materializar, por meio de palavras, o instante observado, sentido, percebido. Não tenho ritual específico que favoreça a escrita. A ideia vem, é capturada e colocada no papel. Depois, o texto passa por um processo de lapidação... avaliação e reescrita. Por vezes, meus textos ficam adormecidos por um tempo. É como se, no trajeto, algumas paradas fossem necessárias, seja para reabastecer ideias, arejar pensamentos e sentimentos, para silenciar ou para reencontrar pontos de desequilíbrio. Nesse processo, não raro, alguns escritos ficam pela metade, inacabados (como eu mesma). Outros seguem seu curso: seja pela ilusão de completude, seja pelo efeito de evaporação.
Escrever literatura é diferente de escrever um artigo científico. Para este último, normalmente, temos algo em mente: um tema, um propósito, um objetivo em específico. Basta lançar mão de teorias que nos deem o embasamento, escolher adequadamente a metodologia e, diante do objeto de estudo, colocar-se na posição de analista: coletar e analisar os dados, verificando se os desfechos vêm, ou não, ao encontro das hipóteses iniciais. Mesmo que nos surpreendamos com os possíveis resultados, favoráveis ou não, a escrita científica é marcada pela impessoalidade. É quase que obrigatório o distanciamento entre o pesquisador e o objeto de estudo. Já a escrita literária, para mim, tem tudo a ver com o elemento subjetivo, inclusive os textos que se revelam frutos de um estilo mais realista e que primam pela objetividade. Escrever literatura é, ao mesmo tempo, entregar e esconder. É provocar. É atirar a linha.
GMM: Quais são as suas principais publicações, seja em livro ou na internet, e onde o público pode encontrá-las?
MZB: Já publiquei obras teóricas, fruto de pesquisas individuais ou coletivas, referentes aos objetos de estudo que me concernem enquanto pesquisadora. Em 2025, reuni alguns poemas que estavam hibernando e decidi publicá-los – “Escritos” – com o apoio da universidade de que faço parte. No mesmo ano, finalizei a obra infantojuvenil “Felício e Lucrécio” que, em breve, espero, terá continuação (o esboço do segundo e do terceiro volume já está pronto). As duas produções literárias foram publicadas pela Edifapes. Ainda tenho alguns exemplares disponíveis.
Meu primeiro livro é fruto de pesquisa que realizei no Mestrado em Letras, intitulado “Autoria: entre a colagem e a descolagem do sujeito ao discurso-outro”. Foi publicado pela Novas Edições Acadêmicas e está disponível para aquisição de forma on-line.
A última obra, “História e Arte em Medicina: conexões poéticas”, publicada pela Edifapes, reúne textos de acadêmicos do curso de Medicina, resultado de pesquisas realizadas no âmbito da disciplina Medicina Narrativa e Humanidades Médicas. O e-book tem como organizadoras as professoras Elisabete Maria Zanin, Vânia Maria Barboza e eu. Está disponível, gratuitamente, pelo link: https://www.uricer.edu.br/site/publicacoes/255.pdf
Uma parte significativa da minha produção está disponibilizada no site da Academia Getuliense de Letras, da qual ocupo a cadeira nº 9. Eis o link:
https://sites.google.com/uricer.edu.br/academia-getuliense-de-letras/mariele-zawierucka-bressan
GMM: Que projetos literários você sonha realizar nos próximos anos?
MZB: Está finalizada a continuação da obra “Felício e Lucrécio”. O segundo volume conta sobre a chegada de uma gata – a Querenciada – que se reúne ao grupo de amigos. O terceiro aborda um tema muito caro pra mim: a passagem. É o momento em que o grupo precisa se despedir de alguém muito especial.
Sigo escrevendo duas obras diferentes, que reúnem contos. Uma delas traz textos sobre a famigerada “Vila Guampa” – palco real que inspira as mais fictícias narrativas. A outra, não menos importante, apresenta contos de (des)encontros. São casos em que o acaso não colaborou e as vidas precisam seguir seus rumos, quase sempre incertos e descompassados.
Há anos tenho trabalhado na obra que retrata a vida (e a morte) de meu avô – o véio Zabiruka, como era conhecido. Minha falecida mãe iniciou o projeto, gravando as histórias que ele contava (as reais), mas não teve tempo para finalizá-lo. Embora eu não tenha utilizado nenhuma ferramenta de áudio ou vídeo, aquelas histórias ficaram impressas em minha memória. Por isso, volta e meia, retorno ao arquivo para manter viva a lembrança daquele tempo que, embora não volte, não se apaga.
Por fim, preciso mencionar que, como professora da Educação Básica, em Getúlio Vargas, quero continuar contando histórias. As crianças gostam de uma boa história. As crianças precisam de boas histórias.
