— Entrevista originalmente publicada no perfil de bookstagram @ca_leitora.
Quem é Guilherme Mossini Mendel?
Guilherme Mossini Mendel nasceu em 5 de julho de 1987, em Erechim (RS).
Licenciado em Letras pela Universidade Regional Integrada – Campus de Erechim (2009) e Mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade de Passo Fundo (2012), atua como professor de Língua Portuguesa na rede pública municipal de sua cidade natal.
Autor de sete obras poéticas e participante de cerca de dez coletâneas ao lado de diversos escritores, constrói sua trajetória literária entre o rigor da linguagem e a sensibilidade da criação, unindo o olhar do educador à voz do poeta.
Apaixonado por música, cinema, literatura e animais, encontra nessas expressões e afetos novas formas de inspiração para sua escrita.
1. Quais são as principais características da sua poesia? Que tipos de poemas os leitores encontrarão em “Contudo”?
Gosto de escrever poemas acessíveis à maior parte dos leitores, sempre procurando utilizar o máximo possível de recursos, de modo a aprimorar tanto a forma quanto o sentido do que é expresso no texto. Procuro jogar com as palavras, empregar recursos sonoros, estudar os melhores locais para quebrar os versos, usar rimas em momentos estratégicos e repetir versos e termos com determinadas intenções. Busco, assim, fazer uma poesia rica, e não excludente. Em “Contudo”, os leitores encontrarão poemas curtos e longos, mais e menos sonoros, uns mais críticos, outros mais românticos, mas sempre propondo reflexões e tentando alcançar a humanidade, a sensibilidade que ainda existe, mesmo que adormecida, nos indivíduos.
2. De que maneiras o seu trabalho como professor dialoga com a sua atividade de poeta, e vice-versa?
Surgi para a poesia em 2007 e me tornei professor em 2011. Antes de entrar em qualquer sala de aula, já tinha lançado alguns livros, sem planejar um público-alvo. Escrevia aquilo que eu precisava escrever. Quando comecei a trabalhar com os estudantes, apresentei minhas publicações, disponibilizei-as na biblioteca e presenteei alguns alunos com exemplares. A partir daí, teve início uma situação de duas vias: eu, enquanto professor e poeta, encontrei-me no papel de incentivador da leitura e da escrita, tendo de ter um cuidado muito maior com aquilo que inseria nos livros, uma vez que, desde então, meus principais leitores viraram as crianças e os adolescentes; e estes, na condição de aprendizes, passaram a me incentivar muito na carreira, a ler massivamente os meus livros (que, felizmente, não param nas estantes das bibliotecas) e a me ver como alguém de confiança para compartilhar sonhos e buscar orientação. Hoje, o professor Guilherme e o poeta fundiram-se em uma só personalidade, em prol da Educação, da Arte e da Cultura.
3. Na sua opinião, o que faz um poema ser considerado bom?
Sem sombra de dúvidas, concordo com Mario Quintana, minha referência maior, quando diz: “Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele!”. Ou seja, nas ocasiões em que lemos um poema e nos parece que ele foi escrito para nós. Para exemplificar exatamente a minha opinião, vou usar os extremos. Há poetas que escrevem poemas simples em estrutura e rasos em termos de significado. Percebe-se, nesses casos, que eles até poderiam ser bons poetas; porém, seus poemas são rasos porque seus autores também são rasos em cultura, em conhecimento, e têm muito pouco a oferecer. Por outro lado, há poetas que escrevem poemas tão complexos que nem eles mesmos sabem o que querem dizer, extremamente simbólicos e densos — e que, lamentavelmente, grande parte da crítica literária adora. Tais poemas parecem desafiar seus pretensos leitores, como a Esfinge de Tebas: “Decifra-me ou te devoro!”. Contudo, no meu ponto de vista, o poema deve impactar instantaneamente. Ele não pode ser muito raso ou óbvio, pois não haverá impacto algum, bem como não pode ser tão complexo e simbólico, porque, dessa forma, não provocará aquele encanto inicial. A poesia precisa ser criativa, impactante, desafiadora (na medida certa) e permitir diferentes leituras. Deve ser interessante tanto para o erudito quanto para o inculto, já que, afinal, todos somos pessoas, iguais na teoria, apesar dos pesares — pesares esses que necessitam ser tratados pela poesia.
4. Quais são os seus poemas favoritos em “Contudo”? Poderia compartilhar um deles conosco?
“Cachorrada”, talvez o meu favorito; “O plano do Diabo”, cujo resultado me deixou orgulhoso; “Sou muito preconceituoso!”, pelas reações de quem o lê; “Qualquer um é alguém”, pelo que consegui expressar; “Heróis dos outros”, pela força que demonstra; “Cães de guarda”, que gostei muito de ter escrito; e todos os da Parte 4, que são os meus dez favoritos das publicações anteriores, e eu não poderia deixar de inclui-los nesta lista. Compartilho, pelo que já foi exposto acima, “Cachorrada”:
Cachorrada
O cão é o melhor amigo do homem.
O homem não é o melhor amigo do cão.
Às vezes, quase sempre,
O humano é cachorro.
Às vezes, quase sempre,
O cachorro é humano.
***
O homem é o lobo do homem.
O homem é o lobo do cão.
O homem é o lobo do mundo
Céu e Inferno neste mesmo mundo;
Deus e Diabo neste mesmo homem.
5. Como você se descobriu poeta? E, afinal, o que faz alguém se reconhecer como poeta?
Desde criança, sempre fui solitário, diferente e gostei de me expressar artisticamente. Durante a infância, desenhei bastante. Logo após, no início da adolescência, passei a compor algumas músicas. Mas, assim que escrevi o primeiro texto que reconheci como poema — que surgiu de repente, do nada, apenas pela necessidade de colocar para fora tudo aquilo que eu sentia a respeito da minha timidez — isso me fez muito bem: pela satisfação de ter escrito algo interessante, pela sensação de ter conseguido me livrar de algo que me incomodava e por sentir que isso era natural, como se realmente fizesse parte de mim, como se eu tivesse nascido fadado a ser poeta.
Creio que até dê para aprender a escrever poesia. Para isso, a pessoa precisa trabalhar a sua sensibilidade, saber se ouvir, além de dar voz aos seus sentimentos, pensamentos e percepções (sem nunca abrir mão do estudo da técnica, da leitura de outros poetas e da lapidação constante da palavra, levando em conta que a poesia é tanto inspiração quanto ofício). Por outro lado, já consigo perceber com certa facilidade quem são os estudantes que têm predisposição a escrever poemas. Normalmente, quando os questiono, eles já possuem vários versos rascunhados e nunca tiveram coragem de compartilhar. Na maior parte das vezes, são indivíduos mais sensíveis, temperamentais, diferentes do padrão. Nem sempre são os mais quietos e contemplativos, como eu sou.
6. Normalmente, como surgem os seus poemas?
Procuro não forçar. Por conta disso, há anos mais produtivos e outros menos. 2025 foi bom! Criei bastante. Novamente, como dizia Quintana, a inspiração surge nas horas mais inusitadas. Já perdi ideias por não ter como anotá-las nos momentos em que acontecem. Os meus melhores poemas são aqueles que vieram prontos na mente, bastando apenas anotá-los e organizá-los, ou que, pelo menos, começaram com uma frase inicial que depois fui elaborando e lapidando. E não são momentos em que estou tentando pensar em algo. Não mesmo! Posso estar tomando banho, dirigindo, caminhando, lecionando, passeando com meu cachorro; enfim, em situações aleatórias, simplesmente despenca uma ideia na minha cabeça e sinto uma necessidade absurda de anotá-la antes que se perca. Por exemplo, o primeiro poema do livro, “Solidão”, nasceu da frase “A solidão se sente só” — que achei muito interessante, pois sugere tanto que sentimos a solidão quando estamos sozinhos quanto que a própria solidão está se sentindo sozinha. Isso já exemplifica o que procuro na minha poesia...
7. Qual sentimento você gostaria que o leitor experimentasse ao ler “Contudo”?
O que mais me marca é quando os leitores dizem que leram o livro em um só dia, muitas vezes na primeira ocasião em que o abriram — e não porque a obra seja curta, mas porque gostaram tanto que não conseguiram interromper a sua leitura. Acho isso fantástico! Como educador, espero que “Contudo” desperte nas pessoas vontade de ler poesia, de escrever poesia, de buscar oportunidades culturais diferentes, em vez de simplesmente consumirem produtos rasos já mastigados. Gostaria, de verdade, que minha obra fosse inspiradora.
8. Para encerrar: que mensagem gostaria de deixar aos leitores que estão prestes a conhecer sua obra?
Sei que sou um poeta desconhecido, e dá medo apostar no desconhecido. Contudo, também sou alguém que já construiu uma longa trajetória, que completará vinte anos de poesia em 2027 e que estuda muito para entregar o melhor possível ao leitor. Não busco a densidade prepotente para agradar intelectuais, nem a superficialidade para conquistar as massas. Estou em uma zona intermediária, com poemas acessíveis para alguns e críticos para outros.
Acima de tudo, espero ser lido e compreendido, pois, humildemente falando, tenho feito um trabalho consistente na Poesia e na Educação. Por isso, deixo um convite: não receie o novo. Permita-se o risco de apostar nesta leitura; o desconhecido pode ser, justamente, aquilo de que você necessitava sem saber.