Num mundo cada vez mais digitalizado, surgem figuras que, de uma forma ou outra, pautam o estilo de vida de diversas pessoas. Seja na área da saúde, música, jeito de se vestir, de se apresentar e tudo que se possa imaginar. É uma gama de “estrelas” que são famosas em suas bolhas (aliás, dia sim e dia também, me aparecem esses tais famosos). Sobre isso, quero comentar um pouco sobre a música do saudoso Raul Seixas, que completaria 80 anos em 2025, "Muita estrela, pouca constelação", e fazer um paralelo sobre o que, acredito eu, nosso querido cantor diria sobre esse tamanho estrelato que se expande pela internet, onde todo mundo, ora ou outra, se torna (ou se diz) famoso.
E tem um punk se queixando sem parar
E um wave querendo desmunhecar
E o tal do heavy arrotando distorção
E uma dark em profunda depressão
Neste trecho, Raul cita diversas tribos (lembrando que este texto é um paralelo, pois nos anos 1980 não havia sequer internet disponível), onde hoje podemos fazer uma alusão aos diversos tipos de influenciadores. Há de todos os tipos, pra dar e vender, pra escolher o que quiser seguir e se embriagar de conteúdo (seja ele bom ou não). Punk, wave, fãs de heavy metal e darks são tribos de pessoas que seguiam um estilo (na real, ainda seguem), assim como existem influenciadores de moda, beleza, saúde, nutrição, vestuário e tudo o que se possa imaginar. Em outro momento da música, Raulzito fala de outras tribos, que não vêm ao caso aqui, pois seguem a mesma lógica. Um vasto leque de pessoas que seguem uma tendência, ou que influenciam outros a segui-las.
Tem uma banda que eles já vão contratar
Que não cria nada, mas é boa em copiar
A crítica gostou, vai ser sucesso, ela não erra
Afinal, lembra o que se fez lá na Inglaterra
Aqui vale uma menção importante pra esse trecho: muito do que influenciadores brasileiros fazem por aqui é algo que já viralizou lá fora. São tendências trazidas de países como os EUA (que, aliás, o brasileiro ama importar enlatado de terras yankees), como as esposas troféu (ou tradwife) e outras tendências. Esses ditos famosos, ou perfis verificados, trazem tais conteúdos pra cá com a certeza de gerar amor e ódio, o que dá um enorme engajamento, fazendo com que os criadores fiquem conhecidos em certas bolhas e possam fazer cada vez mais publicidade.
E agora vem a periferia
O fotógrafo ele vai documentar
O papo do mais novo big star
Pra aquela revista de rock e de intriga
Que você lê quando tem dor de barriga
E o jornalista, ele quer bajulação
Pós new old é a nova sensação
A burrice é tanta, tá tudo tão à vista
E todo mundo posando de artista
Aqui, quero atentar para as seguintes ideias do nosso querido Raulzito: o fotógrafo ainda segue documentando as mais novas grandes estrelas (estrelas essas que, na maioria dos casos, são apenas pra um grupo de pessoas, fora da internet, pouco são conhecidas) e as revistas que se lê hoje são os reels do Instagram. Por final “todo mundo pagando de artista” é o mesmo que “todo mundo pagando de famoso”. Influenciador que tem uma penca de seguidores, mas, se alguém passar por ele/a na rua, ninguém conhece. Famoso/a que só é conhecido por um grupo restrito. Dificilmente algum “fura a bolha”. No final, todo mundo se acha famoso e é apenas subcelebridade de internet que fala pra uma galera ouvir. É um tanto de famosos, verificados e estrelas que a constelação da vida real tá ficando bem pequena. É tanta gente famosa que a maioria da população não conhece 5% desse povo de redes sociais.