No presente texto quero falar de duas paixões que me acompanham desde muito jovem: futebol e animes. A primeira, como acontece com muitos guris criados por pais torcedores, veio naturalmente; a segunda nasceu das tardes em frente à antiga Rede Manchete. Nessas idas e vindas, mergulhei em muitas leituras sobre ambos os temas, sobretudo sobre futebol. Aqui, escolhi destacar um período específico: a Copa do Mundo de 1970, disputada por uma das seleções mais mágicas de todos os tempos — e que, assim como os animes, também foi usada como instrumento de soft power.
O caso do Japão é emblemático. Ao longo da história, o país cometeu graves crimes contra a humanidade, especialmente na China e na Península da Coreia. Apesar desse passado sangrento, hoje o Japão é visto com simpatia e atrai turistas do mundo inteiro, em grande parte graças à sua cultura pop. Como limpar a imagem de um país marcado por violência? A resposta foi investir em narrativas encantadoras: desenhos com garotas carismáticas, super-heróis que defendem a Terra, romances juvenis que prendem o espectador por horas. O resultado foi um sucesso estrondoso. O soft power japonês conquistou gerações, transformando música, séries e filmes em símbolos de uma cultura admirada globalmente.
Já a Copa de 1970, com nomes como Jairzinho, Pelé, Carlos Alberto Torres, Félix, Everaldo, Gérson e Tostão, teve um papel diferente. Tratou-se de um soft power interno. Naquele período, vigorava o AI-5, os chamados anos de chumbo. Para desviar a atenção da repressão, a ditadura militar usou a seleção como vitrine: “Vejam, somos fortes e prósperos!”. Enquanto o povo vibrava com o tricampeonato, o regime de Emílio Médici (1969-1974) mantinha prisões, torturas e mortes. O futebol funcionou como cortina de fumaça, abafando os fatos e reforçando a narrativa oficial.
Esse recurso não é exclusivo. Basta lembrar dos filmes hollywoodianos, que há décadas exaltam os Estados Unidos como potência mundial; ou do K-pop sul-coreano, que encanta jovens e adultos e vende uma imagem vibrante da Coreia do Sul, apesar dos graves problemas sociais, como os altos índices de suicídio — inclusive dentro da própria indústria do entretenimento.
O soft power é, afinal, uma forma de expansão cultural sem bombas ou armas. Todos os países que podem recorrem a ele, sem exceção.