— Entrevista originalmente publicada no perfil de bookstagram @leituras.da.pam.
BIOGRAFIA: Guilherme Mossini Mendel nasceu em 5 de julho de 1987, em Erechim (RS). Licenciado em Letras pela Universidade Regional Integrada – Campus de Erechim (2009) e Mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade de Passo Fundo (2012), atua como professor de Língua Portuguesa na rede pública municipal de sua cidade natal. Autor de sete obras poéticas e participante de cerca de dez coletâneas ao lado de diversos escritores, constrói sua trajetória literária entre o rigor da linguagem e a sensibilidade da criação, unindo o olhar do educador à voz do poeta. Apaixonado por música, cinema, literatura e animais, encontra nessas expressões e afetos novas formas de inspiração para sua escrita.
01 – Quando você começou a escrever?
Desde criança, eu sempre sonhei em ter uma banda de rock. Assim que ganhei meu primeiro violão, aos catorze anos, comecei a compor algumas músicas. Sempre gostei de fazer as coisas do meu próprio jeito. Musicalmente, até aprendi a tocar algumas canções de outros artistas, mas o que eu mais adorava era criar minhas próprias letras e melodias.
Sempre tive um gosto musical bem particular e restrito, e por isso sabia que minha música chamaria a atenção de poucas pessoas. Até que, aos quinze anos, surgiram em minha mente os versos de um poema sobre minha timidez, algo que me perturbava muito na adolescência. Eu não sabia nada sobre poesia, mas, assim que terminei aquele texto, achei-o maravilhoso! Fiquei empolgado ao perceber que, escrevendo poemas, qualquer pessoa poderia apreciar.
Apesar de extremamente tímido, criei coragem para mostrar aquele primeiro texto a familiares e amigos. Eles gostaram muito do que leram e me incentivaram a continuar. A partir de então, minha vida mudou: escrever poesia foi o fator determinante para que eu escolhesse cursar Letras, pois queria aprender o máximo possível sobre poesia, escrita e publicação. E consegui! Tive excelentes professores, que me auxiliaram decisivamente na primeira etapa da minha carreira.
02 – Como foi o processo de escrita de “Contudo”?
“Contudo” foi um livro bastante acidental. Durante sua concepção, aconteceram diversos “acidentes de percurso” positivos, que mudaram muito minha carreira e minha visão sobre as coisas. Em 2007, publiquei meu primeiro livro. Quando me tornei professor, em 2011, já havia lançado três obras, participado de algumas antologias e, ainda assim, minha carreira não tinha “acontecido”, digamos assim. Muitas vezes pensei em parar de escrever, porque, como alguns sempre diziam, “poesia não enche barriga”. A vida profissional e as contas começaram a falar mais alto.
Nesse meio tempo, porém, dois fatores se apresentaram na minha trajetória. Primeiro: por mais que eu não quisesse, sempre surgia um ou outro bom poema na minha cabeça, e eu precisava anotá-lo — o que me fazia reunir uma quantidade de textos que teria pena de não divulgar. Segundo: percebi o quanto as publicações que eu já havia feito, sempre disponíveis nas bibliotecas das escolas onde trabalho, influenciavam e inspiravam meus alunos. Isso me levou a focar minha escrita nesse propósito: usar a poesia para formar leitores e escritores.
Esses dois pontos resultaram, por exemplo, na obra “Poesia para escola”, lançada em 2023 de forma totalmente independente. Nesse livro, reuni poemas para estudantes do Ensino Fundamental (do 1º ao 9º ano), levando em conta os textos que minhas colegas escolhiam para trabalhar com as crianças e aqueles que os próprios estudantes mais apreciavam. Nas cerimônias de lançamento, desafiei os alunos do 5º ao 9º ano: quem escrevesse os dez melhores poemas da escola ganharia um exemplar autografado. Descobri diversos talentos em formação, o que me motivou a desenvolver o projeto que atualmente coloco em prática no meu site. Doei praticamente toda a tiragem do livro para instituições de ensino, sem vender um único exemplar. Ainda assim, foi o livro que mais me trouxe retorno, já que continua sendo um dos títulos mais retirados nas bibliotecas e já formou vários leitores e escritores de poesia.
Depois de “Poesia para escola”, segui reunindo poemas e publicando-os no meu blog “Contratempo”. No ano passado, voltei a participar de antologias — algo muito importante, pois desde 2014 não submetia meus textos a esse tipo de publicação. Além disso, conheci editoras de diferentes estados, com processos próprios, o que me proporcionou uma experiência rica e motivadora. Nesse período, também criei um site pelo portal “Recanto das Letras”, ferramenta que tem sido fundamental em todos os segmentos da minha carreira, tanto como poeta quanto como professor.
No início deste ano, comecei a conversar bastante com Bárbara Seibel, escritora e influenciadora da minha cidade, criadora do canal no YouTube e do portal “Ler Pra Quê?”. Formamos uma parceria e trocamos muitas ideias. Ela foi decisiva para que eu enxergasse o Instagram como uma ferramenta importante de divulgação e para que eu me encorajasse a enviar o esboço de “Contudo” à editora M.inimalismos, assim que compartilhei a possibilidade com ela. Confesso que não tinha nada completamente pronto quando submeti os poemas. A Bárbara e eu vínhamos planejando outras coisas, não para aquele momento. Mas vimos ali uma excelente oportunidade.
O título já estava pensado; selecionei cuidadosamente quarenta poemas inéditos em livro e enviei para a editora. Para minha surpresa, fui aceito — um passo profundamente importante e decisivo na minha caminhada como poeta. Na sequência, a Bárbara, que tem sido fundamental para mim, escreveu o prefácio da obra e organizou meus poemas de forma muito interessante, em três partes distintas. Posteriormente, com mais calma, quis oferecer um bônus aos leitores e criei uma quarta seção, adicionando dez poemas já publicados e bastante apreciados por mim.
03 – O que foi mais difícil escrever: o primeiro ou o último poema?
Na realidade, todos os poemas me oferecem o mesmo grau de dificuldade, já que só coloco no papel aqueles versos que surgem prontos (ou quase prontos) na minha mente. Eles podem aparecer, como dizia Mario Quintana, nos momentos mais inesperados. Já me vieram poemas durante uma caminhada, no banho, na parada de ônibus, a caminho do trabalho — enfim, nas situações mais aleatórias.
No início da carreira, empolgado, cheguei a forçar alguns poemas. Mas percebi que esses eram inferiores e, hoje, não forço mais nada. Quando realmente surge uma ideia, pego qualquer papel, escrevo uma primeira versão e depois vou lapidando.
O último poema que escrevi sem uma ideia prévia foi “Repentina aventura”, lançado em 2024 na antologia “Pequeno Semear”, da Editora Frutificando. Esse livro seria composto por poeminhas de até oito versos, e eu não tinha nada pronto nesse formato, embora não costume escrever textos longos. Então, imaginei uma cena em que um dos meus gatos caçava uma mosca e recorri à minha “caixa de ferramentas”, utilizando diversos recursos poéticos para tornar o texto o mais interessante possível.
04 – Qual é a mensagem principal desse livro de poemas?
Creio que seja a resiliência. Sempre deixo a mensagem principal explícita nos títulos dos meus livros. O primeiro, “Humano Expresso”, criticava o excesso de velocidade da vida moderna. O segundo, “Humano Impresso”, buscava retratar as diferentes faces do ser humano em suas páginas. O terceiro, “Sobretudo”, mostrava que eu realmente falaria sobre tudo. O quarto, “Entretanto”, revelava o quanto eu estava saturado naquele momento (inclusive, esse seria meu último livro, lá em 2013).
O quinto, “Doravante”, já trazia uma toada semelhante à de “Contudo”: sugeria que, apesar das dores e dos problemas, precisamos seguir adiante. O sexto, “Poesia para escola”, já foi explicado anteriormente. E este, “Contudo”, propõe que, embora todos enfrentemos adversidades — sendo “contudo” uma conjunção adversativa (olha o professor de Português aí) — devemos erguer a cabeça e prosseguir com tudo, ou seja, com ainda mais energia, usando o fundo do poço como impulso para sair dele.
Sempre pensei em títulos criativos, diferentes e significativos, que fossem, por si só, poéticos na riqueza das palavras. Também tive a sorte de poder planejar as próprias capas, economizando custos e tentando ser o mais criativo possível com o pouco conhecimento de design gráfico que tenho. A concepção da capa de “Contudo” foi minha: a ideia de um Sol tão saturado de energia que começou a explodir.
05 – Quais são os seus autores favoritos e como eles inspiraram você a escrever “Contudo”?
Confesso que só me tornei leitor de poesia depois de começar a escrever poemas. Durante a infância e início da adolescência, sempre admirei a poesia presente na música. Ali, por ordem cronológica, meus cinco principais ídolos são Raul Seixas, Chico Science, Cannibal (da banda Devotos), Redson (da banda Cólera) e Clemente (da banda Inocentes).
Poeticamente falando, sempre ouvi muito sobre Mario Quintana e cheguei a visitar algumas vezes a sensacional Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Porém, quem realmente me apresentou seus poemas foi minha tia Reny, que também me mostrou Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Já meu tio Rubens me presenteou com livros de Pablo Neruda e me emprestou o DVD do filme “O carteiro e o poeta”, sobre o poeta chileno.
Sendo assim, entre os poetas já falecidos, gosto muito de Mario Quintana, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina, Fernando Pessoa, Pablo Neruda e Helena Kolody. Em relação aos poetas contemporâneos, admiro Flora Figueiredo, Adélia Prado, Simone Bacelar, Joselma Noal, Antônio Carlos Policer, Sofia Enderle Silva, Pollyanna Carvalhaes, Gabriela Marcondes e Paula Taitelbaum. Fora da poesia, tenho grande admiração por William Shakespeare, Machado de Assis e Jane Austen, que possuíam uma sensibilidade incomparável e souberam ler a sociedade — e o ser humano — como poucos.
E como eles me influenciam? Por mais que se evite, sempre respinga em você, não é mesmo? Afinal, o conhecimento e a cultura que adquirimos acabam por formar o indivíduo que somos, seja parcial ou completamente.
Mensagem final:
Escrever, para mim, sempre foi uma forma de enfrentar os desafios da vida. Cada poema nasce de uma inquietação ou de um momento inesperado, e acaba virando palavra. Com o tempo, percebi que a poesia não só me ajudava a lidar com minhas próprias questões, mas também podia inspirar outras pessoas, principalmente meus alunos.
“Contudo” é isto: a ideia de seguir em frente, mesmo quando tudo parece difícil. Se meus versos conseguirem tocar alguém, despertar a vontade de ler ou escrever, já valeu a pena.