Meus amigos, após aventurar-me pelos caminhos e atalhos da justiça, já lhes afirmo: foi muito decepcionante para mim. É muito difícil entender tal rejeição aos meus afamados conhecimentos jurídicos, os quais foram prontamente desprezados. Talvez, creio eu, pela insegurança dos magistrados da toga ao refutarem, com veemência, meu auxílio — o qual, com toda certeza, teria elucidado aquele emaranhado de provas e contraprovas.
Como já lhes adiantei, sinto que minha boa vontade e minhas intenções não foram devidamente reconhecidas. Após tal acontecimento, confesso aos amigos que fiquei frustrado. O desânimo tomou conta deste ser. Mas, como diz o velho ditado: “Caminhão parado não faz frete”. Resolvi aventurar-me por novos caminhos profissionais.
Recebi o convite de um amigo que trabalha na construção civil. De início, rejeitei. Porém, como minhas finanças já estavam comprometidas, resolvi aceitar. Após conversarmos e confirmar meu interesse, a entrevista ficou marcada para o dia seguinte.
Foi uma longa noite — muito pela ansiedade, muito pelas preocupações sobre como faria bom uso de alguns conhecimentos de engenharia e preparação adequada de materiais. Vejam, amigos, que não pretendo oferecer tantos recursos técnicos — que, como sempre lhes adianto, eu possuo —, mas sim ser útil aos engenheiros e mestres de obra, que já administram a obra com maestria. Apesar das frustrações anteriores, acredito que não devo deixar de contribuir para o bom andamento da obra e para amenizar a árdua jornada dos meus futuros colegas.
Após essa noite de planos minuciosos, o despertador do celular me avisou: era hora de me preparar para um dia único. Já na entrevista, poderia adiantar alguns detalhes e mostrar o quanto poderia auxiliá-los. Cheguei certo de que seria aprovado. O encarregado da obra e os engenheiros estariam lá, pois foram avisados de que eu estaria à disposição para elucidar dúvidas do ofício da construção civil.
Aguardei alguns minutos, que achei desnecessários. Finalmente, após longos cinco minutos, fui convidado a entrar na sala. Lá estavam apenas um engenheiro e o mestre de obras. Eu esperava jovens engenheiros, que teriam oportunidade ímpar de adquirir conhecimentos para o futuro.
Mesmo decepcionado com a fria recepção, iniciamos a entrevista cordialmente. Pediu-se que eu falasse de minha pessoa e carreira, o que fiz com entusiasmo. Notei certo espanto no semblante deles — talvez pela longa lista de atividades que exigiram meu intelecto ao máximo.
Após minha apresentação, ouvi atentamente as explicações dos entrevistadores. Já acreditava que meu nível e minha experiência — um benefício muitas vezes não reconhecido — me colocariam em função mais elevada. A experiência nos permite avaliar situações que não estão nos manuais e livros escolares.
Antes que me informassem quais funções estariam disponíveis, pedi licença para dizer o quanto poderia contribuir: desde consultoria em engenharia até mistura de materiais para um cimento mais duradouro. Eles trocaram olhares de espanto, mas não hesitei. Falei, com autoridade, por trinta minutos.
Depois dessa “aula” de engenharia e química, aguardava a oferta de um cargo elevado. É certo que o engenheiro e o mestre de obras se sentiram ameaçados. Pediram-me para aguardar por alguns minutos na sala de espera, e eu escutava que os dois lá dentro estavam travando um debate — certamente comentários sobre o meu saber. Ouvia conversas, risos... Fiquei muito animado!
Funcionários passavam e eu os cumprimentava cordialmente, pensando: “Logo todos saberão que serei seu chefe e ficarão muito felizes nas ocasiões em que forem convidados a ir até minha sala e, também, quando cumprirem as minhas ordens”. Quase não ouvi quando abriram a porta e chamaram meu nome. Preparei-me para receber elogios e, quem sabe, convite para novas palestras, agora com todos presentes.
Pediram-me para me sentar e, sem mais delongas, disseram-me que gostaram muito de mim e de minha vasta experiência, mas que infelizmente não poderiam me dar a vaga justamente por causa dela.
— Qual seria o motivo? — perguntei.
— É que a vaga de trabalho que temos é para auxiliar de pedreiro!
— Ah, é essa a vaga!?