Estando eu a cumprir meus afazeres diários no trabalho, recebi a visita do amigo carteiro, que me entregou em mãos uma notificação. Para minha surpresa, era da Justiça, e fiquei ciente de que fui convocado para a nobre função de jurado.
Convocado que fui para compor o corpo de jurados, vou, modestamente, me pôr a serviço da nobre Anciã, que tem os olhos vendados como sinal de imparcialidade. Embora eu creia que ela, ultimamente, tenha dado algumas espiadelas em favor de um lado ou de outro, serei, da minha parte, claro e objetivo ao alertar o Excelentíssimo Magistrado de que, sempre que uma dúvida surgir, estarei pronto para auxiliá-lo com meus conhecimentos jurídicos, sem custo ou favorecimento algum, apenas contribuindo para que a justiça seja feita em nossa amada comunidade. Enquanto aguardava a abertura da sessão, tive uma ideia, que lhes apresento a seguir.
Em um pedaço de papel (pois, no momento, não possuía uma folha mais adequada), redigi as linhas abaixo:
“Ao Excelentíssimo Magistrado, é com imensa alegria que me coloco à vossa disposição para que, em caso de impasse, não hesite em consultar-me, pois estou aqui para colocar aos seus préstimos os meus vastos conhecimentos jurídicos.”
Solicitei então a um dos assistentes do Excelentíssimo Magistrado que lhe entregasse o bilhete. Este me garantiu que, assim que possível, o faria chegar até ele. Ansioso e confiante de que meus préstimos seriam úteis e reconhecidos pela corte, concentrei-me em cada detalhe apresentado pelo nobre promotor público e pelo advogado de defesa.
Durante a sessão, com acalorados debates entre as partes, impacientava-me, pois certamente eu poderia ser consultado a todo momento. Confesso, porém, que senti entre os debatedores certo receio em usar meu vasto saber, talvez por medo de que, em poucos minutos, eu esclarecesse tantas provas e contraprovas, definindo um destino justo ao réu.
A acusação apresentava provas quase incontestáveis, mas a defesa lutava para rebater cada ponto. Acomodado entre os colegas jurados, sentia-me entristecido e desapontado por não poder contribuir com minhas teorias, as quais, acredito, elucidariam o caso. O réu, até então calmo ao lado do defensor, discordou de alguns argumentos da acusação e tentou tomar a palavra, proferindo acusações e ameaças. Foi contido, e o juiz o advertiu a silenciar, permitindo-lhe apenas inquirir o defensor. A sessão prosseguiu com debates ferrenhos, provas e contraprovas.
Transcorria tudo normalmente quando, para minha surpresa, notei que o magistrado encontrou sob sua mesa o bilhete que eu lhe escrevera, lembrando-o de meus préstimos. Ele o pegou, leu-o com atenção e, eu, com um sorriso de satisfação, fiz-lhe sinal positivo. O juiz retribuiu com um leve sorriso, e todos voltaram seus olhares para mim. Pensei que, agora, ele se sentiria mais tranquilo e confiante, sabendo que eu estava ali para auxiliá-lo em qualquer impasse jurídico.
A sessão encaminhava-se para o desfecho. A acusação apresentou suas últimas provas, de solidez aparentemente condenatória. Mesmo assim, o magistrado continuava a me ignorar, o que me causou espanto, pois ele sabia de minhas intenções de contribuir.
Concluídos os trâmites acusatórios e defensivos, fomos encaminhados à sala secreta para avaliação e decisão individual. Encerrada a reunião, coube-me anunciar o veredito final ao juiz e à corte, missão que aceitei de bom grado, pois meus colegas, cientes de minha perspicácia, designaram-me porta-voz.
O magistrado pediu que todos se levantassem para dar as últimas instruções e solicitar o veredito final. Antes de relatar a decisão, cumprimentei os nobres magistrados e fiz considerações pessoais sobre as provas apresentadas. Notei o espanto de todos; eu já estava convicto da culpa do réu. Nesse momento, o magistrado se levantou, interrompeu-me com indignação e anunciou que o julgamento seria anulado. Segundo a lei, o jurado não pode manifestar seu voto em público; a decisão deve ser secreta e individual.
Ele advertiu-me de que meu nome seria excluído de futuras convocações e de que eu havia comprometido todo o trabalho da acusação e da defesa, prejudicando inclusive o próximo julgamento.
Pensei que fosse um engano ou uma peça pregada para aliviar a tensão, mas seu tom permaneceu severo. Achei que fosse inveja ou medo de que eu resolvesse o imbróglio jurídico sem pestanejar.
Dei de ombros. Prejudicados não seriam meus conhecimentos, mas eles, que perderam a oportunidade de uma aula prática, onde, certamente, eu lhes passaria dicas inestimáveis para futuros debates.
– Bom, tentei ajudar várias vezes. Azar deles. – E ri comigo mesmo.
(Ivan Paulo Nadaletti – 03/05/2025)