Não importa: seja em prosa, seja em verso, Adélia é poética!
"Solte os Cachorros" (1979) marca a estreia da autora em um livro de prosa. O formato mudou, mas a poesia não a abandonou em momento algum.
Na seção principal, homônima à obra, Adélia realmente "solta os cachorros", pois todas as páginas soam como desabafos. Nelas, a mineira "regurgita" suas impressões sobre a vida e o mundo, com destaque para os relacionamentos interpessoais e a religiosidade. Tudo isso é feito de forma aparentemente solta e misturada, em vastos blocos de prosa, onde a escritora utiliza-se tanto da forma quanto de sua transpiração poética para comunicar.
No restante do livro, em "Sem enfeite nenhum" e "Afresco", a autora experimenta temas, abordagens e formatos, construindo um encantador mosaico literário.
Por fim, em "Solte os Cachorros", diz e não diz, afirma mas confunde. No decorrer da leitura, o leitor nunca tem certeza se está lidando com ficção, autobiografia ou autoficção; se está lendo sobre Adélia, sobre uma mulher qualquer ou, até mesmo, sobre um homem. Em suas linhas, o dito transmite muito, mas o não dito grita!
"Solte os Cachorros" é uma joia muito bem lapidada, com uma falsa aparência de pedra bruta.